Seja Bem-vindo ou Bem-vinda ao meu Sítio, que é dedicado ao Anjo de Portugal e ao Grémio e Grupo da Filosofia Portuguesa.



Sobre o Domingo de Pentecostes 

À memória de José Augusto Mourão


«Fazer pouco da Filosofia é, veramente, filosofar.»
Blaise Pascal


INTRODUÇÃO 

Nós seremos breve e leve. Ao longo do nosso labor, nós hemos de aventar: é frutífera, na fronde, é frutífera Éfrata. E vamos, então, ao missal e à messe do Messianismo. Todas as religiões são raios do mesmo Sol que eduzem, conduzem, ao divo e a Deus. A Deus elas conduzem por palavras diferentes. Ou melhor, seguindo e segundo William Blake, o Inglês, todas elas são expressões do «Génio poético» de cada povo, cultura, e civilização. Elas diferem, apenas, devido ao espaço e ao tempo, que são princípios «a priori» da sensibilidade. Apela, o espaço, à Geografia, e diz respeito, o tempo, à História das palavras. Quando os homens preenderem, ou compreenderem, este facto e o feito, cumprir-se-ão, alfim, as profecias de Isaías, sobre o Templo e o tempo do milenarismo: «Das espadas fabricarão enxadas, e das lanças farão foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra, e ninguém mais vai treinar-se para a guerra.» «Porque nasceu para nós um menino», continua o Poeta, ‘um filho nos foi dado: sobre o seu ombro está o manto real, e chama-se «Conselheiro Maravilhoso», «Deus Forte», «Pai para sempre», «Príncipe da Paz.»’ E citemos, mais uma vez, o filho de Amós: «O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e as suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá feno como o boi. O bebé brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente.» E esta, pra mim, é a Liberdade. E esta é a doutrina da não-violência. Fiéis, dessarte, aos seus Profetas, cumprimentam-se, os Israelitas, dizendo, e proferindo, a palavra «Shalom»: significa ela «Paz» em seu sentido pleno. Mas em vez do exílio, isto é, em vez de a procurarmos fora de nós, começa sempre aqui, começa sempre, a Paz, em nosso coração.



TESE 

Que o Nazareno é Nazarita e por isso o Nazireu. E sejamos aticista, e no orbe, e urbano, não mataremos, nós outros, ninguém, por ele não professar o «querigma» do Cristo. E do «querigma», e do carisma, trataremos aqui. Se a linguagem, para Heidegger, é a Casa do Ser, façamos, da Escritura, a habitação de Deus, a choruda «Shekiná»: nas águas de Hipocrene, é chama e é chamada a «Sophia» perene. Que a língua liga, e é apanágio dos colegas. É apanágio do ledor. E agora vamos, entanto, às palavrinhas. Por as palavras cria o homem o sobremundo da cultura que o separa e aparta duma animalidade. E quanto ao Pentecostes?, pergunta o leitor. «Pentecostes», do grego «Pentekosté», significa «quinquagésimo». Quero eu dizer, finalmente: se memora e comemora, a festa pentecostal, sete semanas depós da Páscoa. E por isso ela é chamada de Festa das Semanas, Festa das Primícias, ou Festa das Colheitas. Tem ela a voz, e a vez, 50 dias depois da Festa dos Ázimos. E temos, então, que o número 5 ( não olvidemos que é marcante, na Bíblia, a numérica, etérica, simbologia ), o número 5 nos remete, por isso, ao Quinto Império, ao Éter, à celeste quintessência. Como adiante aduziremos, esse é o culto, imperial, do Espírito Santo. Se «Belém» significa a «Casa do Pão», esse é o rito, o ritual, da Paz e dos pães da proposição. E na festa, sideral, da Colheita do Pão, assumindo, assimilando, o Pão da Palavra, as primícias da Colheita, elas vão para o Senhor – e assim o professa o Levítico literal. Quero eu dizer: no elemento, ou alimento, do Pão quotidiano, se acura, e acrisola, o sentido de Aliança com o «Abba» e o Paizinho – e o Pão da Aliança é celebrado, adrede, em crisol, e cristológica, Eucaristia.  

Pois a apresentação, do Pão, a Deus Padre, é rito antigo, avito, e deveras arcaico; usando, Melquisedeque, o pão e vinho, Abraão, o hebraico, era alçado e abençoado, e se o nativo é nutrice, caminha, a nutrição, a par da adoração – e a Palavra é deveras medicamento e alimento.  E se a Justiça se une à Paz, era Melquisedeque, afinal, o Rei de Salém, o Sacerdote, no altar, do Deus Altíssimo. E do colaço e colação, e da Colheita do Trigo, no Antigo Testamento, se passa, nos Apóstolos, à colecta, e à Colheita, do Espírito Santo. Ele é a signa, a bandeira, o sinal, da universalidade, do arcano, e Cristiano, Catolicismo – e são por isso alteadas as línguas de Fogo. E são por isso orações, e duas ilações se tiram na lição. E eis a prima, a primeira, e a primordial: a Boa Nova é doutrina pra todo, e todo o mundo, não há, na Boa Nova, a discriminação. Que evangélico e angélico, tem, o Salmista, as portas e janelas todas abertas. Pois não há, para a Verdade, nem grego, nem judeu, nem escravo, nem homem livre, e nem doutor, nem a estultícia – e é a encíclica, na verve, a enciclopédia, e somos todos invitados para o Banquete nupcial. E a sagrada, e a segunda, proposição: o Pentecostes narrado nos «Actos dos Apóstolos» é deveras sacrossanto, ele significa, ou dignifica, o início, caroal, da Igreja cristã. Mas agora, esquadrinhemos: se o Fogo apareceu na Aliança, ou liança, do Monte Sinai, quero eu dizer, na sarça ardente, o Fogo nos aparece, no «liber» de Lucas, qual simpósio e o cenáculo da Fraternidade. E difundindo, e defendendo, a «communio» da eclésia, S. João Crisóstomo chama aos Actos, deveras, o Evangelho, e a Palavra, do Espírito Santo. O Espírito que atende, ampara e preside à Igreja Cristiana. Pois nos «Actos dos Apóstolos», ouçamos o discurso do Apóstolo Pedro: «Nos últimos dias, diz o Senhor, Eu derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas. Os vossos filhos e filhas vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos terão sonhos. E, naqueles dias, derramarei o meu Espírito também sobre os meus servos e servas, e eles profetizarão. Farei prodígios no alto do céu e sinais em baixo na terra: sangue, fogo e nuvens de fumo.» Ou cotejando, novamente, com o Antigo Testamento, em Génesis, por isso, se narra a história dos homens que, levados pela «húbris», construíram, dessarte, a Torre de Babel: eles queriam ser famosos e chegar até ao Céu, mas seu orgulho, desmedido, deu origem à queda, e à confusão das línguas. E se o «Homo», por isso, vem do humo, quem se humilha será exaltado, quem se exalta, em diabril, será humilhado. Ou no lance e lição: comunicar, no sentido pragmático, ele é qual charla, o boato, e a denotação – mas o comunicar, poeticamente, é qual a Nova, e a «communio», da conotação. Contra a Marta, que labora, adora, e ora, a Maria do Evangelho; ela toma, pra Jesus, a melhor parte. Pois é da Poesia o «Dasein», o «Mitsein», e o fundamento do Ser, a porfiada atenção ao mundo do Ser. Quero assertar, e proferir: se é existir o «Dasein», será, o «Mitsein», o acompanhar, o estar junto, o coexistir. E por isso o comunal, e por isso os cristianos tudo punham em comum, e comungavam, «companions», do Verbo sideral e do Corpo do Senhor. E por isso, nós afirmamos, em celeste Firmamento: tomando parte, e participando, da unicidade da pessoa, professa o Cristiano a autêntica existência – mas aferrado ao véu de Maya, e ao mundo do ter, participa, o prosaico, da existência, anónima, do homem, dessarte, unidimensional. Mas revertendo, no lance, o Pai assume o Filho – e ao Filho, lilial, desce o Paracleto sob a forma de Pomba. O mesmo Paracleto que, falante e aflante, Ele dá testemunho do Pai e do Filho – e com o Filho lavora, no escol e a escola da Nossa Senhora. Quero eu dizer: na eclésia, assembleia, e na egrégora do Cristo. Pura Poesia, afinal, o fanal, e o carisma, da cristificação – e no asmo, e entusiasmo, a parábola, e o Paracleto, do mitificar. Por isso o Vate é Vaticano, e no viático, ou vieira, o Poeta, e a Porta, é construtor de pontes – e eis o Jano e eis o Graal, esse o carme, e a cadeira, pontifical. Ou falando, agora mesmo, por tópicos e tropos: ao ser expressão do inconsciente ( e remembrando, aqui, a escada de Jacob ), também é, a Literatura, a cruzada e a carreira do sobrenatural. Parafraseando, aqui, o Hoené Wronski, não basta, ao homem, conhecer a Verdade – é preciso também criar essa Verdade verdadeira, e eis a escola e o escopo da especulação. Como eis, aqui, a crística lição.      



CONCLUSÃO

E hemos dito e aventado: é pronto e é preste, é preciso o teologúmeno. Álvaro Ribeiro, no lance, já nos tinha avisado: Filosofia sem Teologia não é, ela não é, Filosofia Portuguesa. Ou melhor: se o Deus, deveras, é o Alfa e o Ómega, não conhecer a Deus Pai é ser, na verdade, analfabeto. Se a prece é sobretudo uma Arte da Palavra, é precisa, dessarte, uma oração… do coração. Nos seja feito, por isso, de acordo com a nossa Fé: e surge aqui a Sorte, e surde aqui o querer consorciado com o crer. Pois no escol e na escola do Lusitanismo, a Ideia de Deus ela é, deveras, o arrimo e a base da Filosofia, ela é o fundo, o fundamento e o fundamental. Em sua gnósica prosa, Fernando Pessoa, forte e fértil, ele tinha, dessarte, toda a razão: se interpretarmos, hermeneuta, os Evangelhos à letra, eles são adrede libertários, são pura e simplesmente anarquistas – e não remembras, aqui, o caso do Tolstoi??? Como quer que seja, seremos, nós outros, os discípulos do Cristo, conheceremos a Verdade, e a Verdade, alfim, nos libertará. «Mas pra que serve, agora, a Teologia?», pergunta o ledor. Um rapsodo, que nos sopra, um rapsodo, que ressuma, nos dá a resposta. Na vez e na voz do Poeta João Belo, «Procurar o infinito é descobrir o impossível, saber que não se existe é conseguir a existência». É conseguir, deveras, o «Dasein», disserto eu. O desvelar, o alumbrar, o co-mover, uma «ek-stática» insistência na Verdade do Ser.



Queluz, 17/ 05/ 2015



AD MAJOREM DEI GLORIAM
PAULO JORGE BRITO E ABREU

aos Mestres de Shambhala e aos Irmãos de Heliópolis 
ao Éter e Outro como quinto elemento, uma Asa imortal do meu coração .

«Em verdade, em verdade, vos digo, que se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, fica infecundo; mas, se morrer, produz muito fruto.» 
S. João, 12- 24, 25

As palavras são os lemes, e, como aduziremos, são Numes, também, os sápidos números. Se a batalha é o batel, muito havemos nós escrutado, e portanto esquadrinhado: e são as vozes recônditas que vêm do Ser… Do que vimos e ouvimos, assertava, nas artes, o bispo anglicano: ser é ser percebido, e o mundo, para Schopenhauer, é a minha representação. Depois de lutas e labutas na plaga intelectual, trazemos, agora, à colação e prelecção: a mente é a medida com que o mundo mensuramos, e o conhecimento depende mais do sujeito cognoscente que do objecto conhecido. Por vocábulos outros, e outras dilecções, a mente são os óculos ou espelhos com que assistes e aferes o espectáculo da vida: com as lentes azulinas, te alevantas ao celeste, mas, se as lentes forem negras, tudo vês tu cor da morte. Já escrevi certa vez que, para um esperto e experto nas artes do Yoga, o pôr do Sol visto através ou atrás das grades da prisão é de alvorada e é de alor; ele é mais belo do que uma aurora e as horas de insónia, figuradas e tidas no luxo e no lixo dum fausto apartamento: por isso mesmo, a mente é pois o «Manas», ela é «man» e é Minerva – e Minerva nasceu da cabeça de Júpiter.

Mas rezingas na freima, amigo leitor? Alicerçado e baseado no poético pensar, este excurso é qual apelo à sã Sabedoria, este ensaio é qual vergôntea do livre pensamento. E aquilatemos na escala, ou citemos os corolários da estética escola. Em primeiro, certeiro, ou primo lugar, o próprio do livro é ser o liberto, sem livor eu apelo ao «topos» libertário. Ninguém me diga, portanto, as palavras que eu hei-de dizer ou como, nas Almas, eu hei-de pensar. Muito longe vão os tempos dessa autoridade, da directiva, ou director de consciência; agora fulgem as horas da Aurora ou Nova Era. Se a lei moral não é autónoma, aduzo eu, ela é medo apremido do patrão ou da Polícia – e com tais mandos e comandos não se funda a Liberdade. Quiseram, em séculos avitos, fazer de Cristo ou do cristismo religião policial. Mas leiamos, aplicados, a Boa Nova joanina; pondo Cristo a anunciar, bem escreve e já releva o emissário dilecto: «Se vós permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará»; e depois da regra de ouro «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei», professa ou confessa o Messias preclaro: «Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai». O grande Mestre, desse jeito, tem a lisura das pombas, lava os pés aos alunos e amima o juvenil… Se é preciso ser criança para entrar, recto e recta, no Reino dos Céus, ser adulto, para a Metaciência, é falhar e faltar às núpcias do Anho, é perpetrar ou comprar o alvar, o livor, o malfeito e falaz adultério: aprestem-se, portanto, para a purificação, sede pois vós presentes às químicas bodas. Se assola o caduceu caducidade e letal, se apela o caduceu à cadeia magnética, sede cedo vós cientes, e conscientes desse modo: se catártico é o poema, «catarse» é uma palavra adveniente ou advinda de mistérios de início, ou digamos, iniciáticos… Para a Metaciência ou metáfora de que vamos tratar, uma obra de Arte é um pôr-se em obra do tecnismo e da Verdade; se é desvelamento da Verdade do Ser, ela é, outrossim, revelação do abscôndito e do esconso no visível ou sensível: por isso o místico é o mista e o mista, misterioso; cerimónia de Elêusis, ao ser mítica, é prelúdio e libar, é teatro ou é «mimesis». No poético pensar, havemos visto, as palavras são pesadas, o pensar é pôr o penso na ferida narcísica; por isso fica, em psicodrama, compensado o pensador: se o saber é o sabor, à escuta da Palavra se acresce e acrescenta o cenáculo do Pão…

Mas os lemes, assertámos, são os lumes; não se desmande o ouvinte, não deblatere o ledor. «Escola», em Grego, significa o ócio, recreio ou tempo livre, quer dizer: em contraste com o labrosta, ou labrego da lavoura, às artes liberais bem se aplicam, ou dedicam, os livres ou libertos de ocupações utilitárias; por isso é própria, do teólogo, a vida contemplativa, por isso o ócio, para Aristóteles, apela, de algum modo, ao sobre-humano e ao divino: é que o divino é emblema do dia, e a luz do Sol derrama, sobre a terra, o genésico ou genético esplendor da Verdade. Aduziremos, agora, o comentário luzido: urge que a Eucaristia seja vista, ou vivida, como festa ou como jogo oposto ao trabalho – e não se lavra, dessarte, em domingal ou em domingo…

Ora o próprio do jogo é ser o jocoso, e apanágio do jogo é ser o jogral – e jogral ou o mágico é o arcano primeiro do Tarot de Marselha. Essa lâmina prima aduna e aduz: a magistral e a meiga, a magnífica ciência reata relações, ou tenções, com o poético pensar; implica a Poesia, ou fica a profecia, no dogma e ritual da Alta Magia… De acordo com Blake e Eliphas Levi, nós proporemos e propomos fanal proposição: é o génio poético, e só ele, que é promotor e motor das religiões, dos cultos, e das Teologias… A esse mágico ou ático génio poético, signamos nós, ou consignamos, como a Metaciência: não sentes tu a signa, amigo leitor? Desde a Bíblia até aos Vedas, passando por Alcorão, os livros que instauram religações, ou religiões, são epopeias, são dramas, ou livros de poemas: em todos os povos, ou populações, tanto a Magia, como a Poesia, são qual arcaica e arcana forma de ciência; os Poetas, em todos os povos, são pois primeiros e certeiros pedagogos: o educar é sua função; pronunciar, comunicar, a sua comunhão. Que o mesmo é dizer: postado à porta, ou na casa do Ser, função do Vate, ou Vaticano, é ser medianeiro entre o Deus e os homens; se o Poeta é pontífice, e portanto faz a ponte, ouçamos o que ensina o Heidegger ilustre: «O pensador diz o Ser. O poeta nomeia o sagrado». Por outras palavras: Poesia não é para nós, como para o S. Tomás, uma «deleitosa mentira» ou «ínfima doutrina», ela é simbolização e amplidão da Cidade da Utopia, ela é, por fim e alfim, o que seria até o mundo, se a realidade coincidisse com o paradigma do Real. Porque a Magia, acima de tudo, é ciência do Verbo, e Verbo é a Palavra transmudando-se para o acto; como a Poesia, dessarte, o mágico mago implica o fazer…

Temos visto e aventado: para o jogral ou trovador, é como, também, para a pelota ou pelotiqueiro: há que brincar, e há que jogar, com peloticas e as pélas – pois, no teatro do Ser, tudo é símbolo, sinal, e assinatura do divino… Há que sonhar, aqui, acordado. Há que ser de novo infante. Se «a natureza gosta de se ocultar», decifremos bem as cifras inscritas em metáforas. E continua, e acusa, o ínclito Heraclito: «O tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança»: e não remembras, ó ledor, os jogadores de xadrez do Ricardo Reis, o alto? A nossa tese, como é facto, presenta-se e alenta-se em aspeito seguinte: mais do que a criada, ou ser em criação, a criança é criadora; no animismo, ou melhor, no panteísmo infantil, o nominar é dominar, e os símbolos participam da natureza das cousas: eis o estado e o estádio mágico-simbólico. E onde é que esse estádio impera, ou prolifera? A resposta é clara, eminente e preclara: na fabulação das crianças, nas artes, no sonho e na neurose, e sempre pois que abundem, e avondem, as imagens em acção: e falamos e chamamos por imaginação. Clarifiquemos os termos: na língua franca, ou francesa, «image» e «magie» são perfeitos anagramas: se o fantasma, dessarte, é fantoche, o mágico ou o mago avigora as «imagos»: daqui dimana a Magnésia, o múnus, ou nosso inconsciente – no escol amigo, do Tarot, eis a escala e a escola que eu venho alicerçar. Pois os Mitos são metáforas, amigo leitor. A fábula é a fala em estado seminal. Com essas alegorias, parábolas ou imagens, se é pois um feito ou perfeito intelectual, eu quero dizer: se legenda ou se lê no interior das pessoas…

Clarifiquemos, inda melhor, os vocábulos e vozes: para o pai da Psicanálise, a vida psíquica é como um icebergue: um oitavo, a consciência, está visível; sete oitavos são escondidos, e são nosso inconsciente. É, pois, a parte subconsciente, a senhora ou promotora do nosso carácter, e ela se exprime, sobremaneira, por metonímias e metáforas, ou seja, os Mitos e os símbolos. Se o trovador se expressa aqui por os tropos e figuras, nós ensinamos, como Lacan: «O inconsciente é estruturado como uma linguagem», é condição, a linguagem, do nosso inconsciente… E daremos mais um passo, e aditaremos, com Alma: se o Sol e a razão solidificam em pragmático, é da quermesse da quimera, é inerente ao incônscio nosso mágico pensar: se a mente e a mentira se alevantam contra a Lei, o «Logos» pois impera no reverso do «Mythos»… E é o sonho contra a censura, e é a «loucura da Cruz» contra o mando e o mundano: contra o Exército, a pompa e o primário, digo eu, contra o Príncipe, o século e o profano, continua, o crucial, a ser o crisol, e sangue dos mártires é semente de cristãos. E não rezingues, nem retruques. Pois na Poesia, ou pitonisa, não se trata, pois aqui, de perder a razão: aqui se trata, ou correlata, tudo o que a razão nos faz perder. E mesmo o Hegel, divos deuses, e mesmo o Hegel, que era obscuro, racional e sistemático, eduziu e aduziu, em matriz meridiana: as nossas naves são as naus, nada de grande se faz no mundo sem o «pathos» ou paixão. Ilumina, desse modo, examina o tudesco: se o Pneuma ou o Sopro é a substância da História, as três formas ou fórmulas do Espírito Absoluto são a arte, a religião, e a ligação ou liança da Filosofia: é que nelas o homem se projecta para o futuro, ele responde, nelas pois, ao apelo do Ser…

Hemos visto que o entrecho, segundo Aristóteles, é teatro e é tragédia. Tal como no cinema, ou na mimese, as pessoas não vão aos Mistérios para aprender, mas para serem afectadas, movidas, comovidas: é que a Magia é pois simpática, é que o «pathos» e o estético dá origem ao patético… Eis a supremacia das ciências humanas sobre as ciências positivas ou ciências da Natura – pois nas humanas ciências, ciências do espírito, ou ciências da cultura, existe uma empatia, ou simbiose, entre o sujeito e objecto do ser ou conhecer: se a Gnose é pois a génese, ou melhor, se a «connaissance» equivale à «naissance», conhecimento, aqui, é co-nascimento: e se ingénuo faz a ponte entre a terra e o Céu, o germinal, ou genial, é sempre o generoso: daqui provém ou promana o nacional e o germano.

E, ser humano ou irmão meu, já dissemos que o trovador é o que fala por tropos. Ora a metáfora, aqui, é uma «translatio», é transferência de nome baseada na semelhança… Já não estamos, agora, no domínio da lógica – nós só estamos, ora mesmo, em analógico domínio. O tópico ou tropo da metáfora, portanto, é mudança do senso próprio para o sentido figurado, ou seja, do ser plato para a esfera, e da terra plebeia para o Éter do alto. Ao ser a Metafísica, desse modo, a metáfora é sacral e metamórfica – se eu isso anelo, em minha mente, a isso chama, o Rimbaud, de uma Alquimia do Verbo. Se o sabor é o saber, para os Filósofos eu falo, e queira Deus que não falhe: para explorarmos a frol do nosso inconsciente, hemos já que escrutar, e escutar os nossos sonhos. E eles acatam e respeitam as regras da retórica: se metonímia é deslizar, ou a deslocação, a metáfora, em vez disso, é uma condensação… E nossa tese é que o sonho, enquanto hipnagogia, pode ser também o mista, ou a mistagogia: pois na messe, na missa, ou na mesa do altar, o sonho apela e anela o «contenu au-delà»… A noite é uma nau, a noite é uma nave, e nós morremos todas as noutes pra voltarmos a nascer no dia seguinte. Viajar no mundo astral, que feitiço, que fantasma, que fetiche ou fantasia!!! O mítico e o Mito é o sonho de uma plaga; o sonho da «persona», o Mito particular. Para atingir a Grande Obra, regressemos, anelantes, aos infernos ou às furnas, retornemos, com arte, ao útero materno: se carece, uma Cruz, do crisma ou do crisol, eu na cova vejo a cave; na cafua, ou na cafurna, eis o forno de alquimistas. Quer dizer: se o minério se extrai da Minerva ou da mina, as metáforas, aqui, podem ser os metais, e os arcanos já existem no fundo do arcaico. Ou entrando, agora sim, no pelouro, na frol, e no foro esotérico: tu visita, com Alma, o interior ou íntimo da terra; e rectificando, ou ratificando, tu lá encontrarás uma Pedra escondida: eis o que avistam arquivistas, arquitectos, ou mestres do engenho; é que os artigos e as artes completam a Natura. E para tais artifícios, há que ser um artilheiro: é que o solerte, ou não inerte, ele pugna com palavras, parábolas e sons, ele luta e labuta com quatro elementos. Os elementos, muitas vezes, são alentos e enfeite, são lamentos e alimentos em sápido e deleite.

Muito oceano, amigo leitor, nós temos navegado – e o viário ou viagem numeram para o viático. É que os números, as notas, as cores e os perfumes correspondem-se, no cosmo, eles são recta no reitor e dão-nos a resposta. E ouçamos, no lance, o belo Baudelaire: « La Nature est un temple où de vivants piliers / Laissent parfois sortir de confuses paroles; / L’ homme y passe à travers des forêts de symboles / Qui l’ observent avec des regards familiers.» Ao que nós acrescentamos : familiares são os símbolos, porque exalçam e falam a linguagem de Arquétipos… Aditemos, em cita, o Carlos Silva: «Neste âmbito merece especial referência a posição de Carl Gustav Jung, quando utiliza este termo, de modo muito frequente, para significar uma «imagem do subconsciente colectivo», uma «matriz psicológica profunda», restaurando assim a acepção mais primitiva do Arquétipo como fonte criativa. O estudo dos Arquétipos da vida onírica, do subconsciente, da infância, do primitivo, do alienado, e ainda expresso nos símbolos e nas tradições religiosas, sapienciais, passa a constituir um vasto intento arquetipológico que abre na Filosofia contemporânea, na estética e na gnosiologia sobretudo, novas e amplas perspectivas. Gaston Bachelard, Gilbert Durand, Mircea Eliade e muitos outros procuram então uma hermenêutica que remete do seu círculo fenomenológico para as imagens primordiais ou os símbolos primitivos de que são instantes e criativos os próprios Arquétipos»: não sentes, agora aqui, os sons do silêncio? Essas Formas ou Ideias são protótipos e fórmulas; ao serem arcanos, os tipos, e representações colectivas, são elas arcaicas e matrizes, elas fazem-nos voltar às nossas raízes. Consideremos no sidéreo; ao mergulharmos no mar, mergulhamos, também, no líquido amniótico – e são as naves da Amónia, da noite ou do Neptuno… Na fase da Poesia, a catarse está entanto na base da cura, e se o Pai do Aristóteles era médico, ou Asclépio, o Esculápio é para os Gregos o filho de Apolo – e a serpente é bem a Musa, ou a recta Medicina. E o poder dessa serpe é qual a Força ou «Kundalinî», ele é electricidade, o magnetismo, e magistério da «Sakti». Filósofo por ígneo, louvemos, dessarte, o Fogo, o pólo e jugo, o pedagógico Yoga: e é preciso conjuntar o flogisto com as águas, é preciso dominar a fera selvagem.

Já falámos da Medicina, ou de higiénica higidez – e medical é pois também a Filosofia… Que a Sabedoria de Pã, leitor nosso amigo, é panaceia ou Pansofia, ela mitiga e aplaca a dolência e a doença. Se o Verbo é pois o «Logos» actuando para consolo, repetimos, outra vez: sopesar-se é qual a cresta, e pensar é pôr o penso na ferida e na miséria – e eis doutrina não hipócrita, eis catarse e a purga para o «corpus» de Hipócrates. Se a vida se concebe em termos de projecto, eliminemos, perfeitos, o abjecto e o dejecto: pois Lucifer é uma fera, o Belzebu é para o bonzo o Senhor da estrumeira: nós cultivemos, pois então, sãos e puros pensamentos. Pois não existe, medicação, sem curial ou cordial meditação – e só por ela eu faço a ponte, só por ela eu atinjo o matinal ou o ser o médium. Encarnando assim a manha, ou astúcia da razão, o Génio poético é mais medianeiro, ele é meio ou instrumento nas mãos de poderes, ou potências maiores: e, na quermesse de Mercúrio, sejamos os cientes, olhemos pois a senda entre a terra e o Céu. Já o dissemos, certa vez, e repetimo-lo em Cabala: quando um Poeta dorme, ou quando um Poeta sonha, os anjos sobem e descem pela escada de Jacob – e de nada mais falamos, não aspiramos a mais nada…

Desenredemos, então, desenredemos o ensaio: como é claro e como é óbvio, as ciências sociais e humanas são condição do próprio homem. Alicerçada e baseada, a paraninfa, em participação mística ou mistérica, a Magia, magistral, ela é fundo e fundamento das ciências do espírito: nessa participação, ou simbiose, partilha, o sujeito, da essência do objecto, e os dous se fundem no tema, no lema, ou mítico emblema. Ninguém vibra com moléculas, nem canais metropolitanos – em mostração do Belo, ou da Estética, tem no «poster» o «teenager» a guitarra do cantor. Quanto mais for ela hipnótica, ou biótica, mais poder terá o tema, mais sentida ou consentida será essa obra de Arte… É que a ode é feita por aedo; a rapsódia, por rapsodo. E tudo irmana, e tudo aduna; e une a si, o nosso jogral, o palco e a galera em cadeia magnética… E sopram os ares, os mares e os ventos. E para o Dilthey, que citámos, nós explicamos a natureza; compreendemos, em vez disso, a vida do espírito. Se tudo vai, pois tudo vem, nos seja lícita, aqui, uma autocitação: «O apaixonado leitor de Poesia deve fazer com ela o mesmo que a criança faz com o seu urso de peluche, o mesmo que a menina, sendo maviosa, faz com a sua boneca: conhecer uma obra de Arte é prendê-la ao meu peito, apropriar-me dela, fazer dela a carne e o sopro, o sangue e vida em mim. O carácter, pois, próprio do animismo e da Magia, isto é, o mitificar ou dar vida a um objecto inanimado, é um fenómeno que particulariza a infância como forma, cunho ou fantasma do pensamento criador. Se o fantasma é o feitiço, daqui se podem, com efeito, concluir duas verdades: a primeira, que a artística obra é sempre um regresso à feeria ou fabulação infantis; a segunda, que o psicodrama da Poesia, como anotaram, muito bem, alguns críticos, coincide, rigorosamente, com a proposta ou propósito da Alta Magia»: no prender, e no prendar, insiste e resiste a compreensão; e o Mago, dessarte, é manifesto, e o símbolo pois adere à lata simbiose.

E prossigamos, na prosa. O britânico e não bruno William Wordsworth disse e eduziu, em dia de brilho: «The child is the father of Man», a criança em criação é do homem o «father», ou antepassado – e é o que dizem, com Alma, os beletristas e letrados: a filogénese reflecte-se, ou repete-se, em ontológica ontogénese: eis a escola e eis o escopo, eis o «topos» e tropo da inquirição… As palavras não enganam, amigo ledor: se o ser especioso é ser o especial, exige o espelho e aspecto o espectáculo das sombras: e eis aqui o Alumbrado, e eis, aqui agora, a lanterna mais que mágica…

Havemos visto e haveis de apreender: mais do que animal racional, ou político animado, o homem é, acima de tudo, um animal simbólico, ou melhor, ele é estético e poético «homo ludens». Álvaro Ribeiro, o caro, nos adverte: se a Língua do «Logos» distingue, como é vero, esta Alma do ser bruto, imaginação é a questa ou aquilo que o impele para o divino… S. Tomás e Aristóteles são unânimes num ponto: não se pensa, rectamente, sem a ajuda das imagens, e são elas que prensam a Magia dos Poetas. Se a criança, como dissemos, é o antepassado do homem, duas notas, aqui, nós hemos de aduzir: a primeira, que só as criancinhas entram, decentes, no Reino dos Céus, e eis, agora, a sagrada e a segunda: o estado teológico é, segundo Comte, o alvor e o berço da nossa Humanidade; os povos começam pois pela figuração, ou representação, dos Devas e dos deuses…

E ratificando, e rectificando, e concluindo: no final do século XVIII, o teutónico Fichte promulgava e publicava os «Fundamentos de Toda a Doutrina da Ciência», para dar a conhecer o seu conspecto ou projecto filosófico: lícito nos seja, na barca e no berço do século XXI, apresentar, em poucas linhas, o esboço da doutrina da Metaciência: se a lógica ensina a mentar, o Mito ou metáfora ajuda a mentir. No domínio das ciências lógicas, ou racionais, a sapiência matemática pode ser considerada como universalidade, universidade e conhecimento unitário; o «não entra aqui quem não for geómetra» inscreve-se, como outrora, no portal ou na porta de aspirantes ao saber. Sendo assim, tudo o que Leibniz e Descartes pretendiam era, dessarte, a «Mathesis Universalis» como escala ou como escola para o escopo científico; a multiplicidade dos conhecimentos era, à guisa metafísica, reconduzida ou reduzida à unidade do pensamento.

Ora sus!, amigo leitor: isto se passa no domínio das ciências diurnas ou pragmáticas, que nos dão a conhecer a real realidade. Outra gnosiologia requerem, porém, as ciências nocturnas ou mágicas, que se apoiam, com força, no sonho, e nos dão a conhecer a surrealidade… Outra Gnose reina aqui, outra página aqui canta, como o Jove de oratório e o Nume encantatório. O dia está, deste modo, para a noite como Apolo para Diónisos, a razão para a paixão; a Lei está para a Anarquia, como o Ego e o «Pater» estão para o inconsciente e o trabalho se coloca em relação com o prazer. Com o prazer e o lazer… E, se ao jugo do «Logos» vai reagir, como grito sideral, o jogo da analogia, consideremos que o prospecto ou conspecto da Poesia é biose contemplativa e prazer desinteressado… E aqui está, leitor amigo, aonde queríamos conduzir-te, e onde queríamos, também, que tu deduzisses: por Metaciência entenderemos o pensamento poético em ligação, ou junção, com as ciências ocultas… Ao homem não basta, dessarte, conhecer a Verdade; cumpre-lhe, no coração e de acordo com a súmula poética, criar ou conceber essa mesma Verdade. E estamos, como já viram a dor e o ledor, a falar da senda monumental de Teoria ou Teosofia que foram a vida, o vínculo e a via do Fernando Pessoa: e envidemos os esforços para a verve e para o Verbo. Quando pensamos, à distância, que este homem adivinhava, pensamos, em Metaciência, que ele era Vate ou Profeta, que exercia, desse modo, a ciência divina… É rainha, no esoterismo, a simpatia ou simbologia, e, para citarmos Álvaro Ribeiro, se «os termos simbolizam uns com os outros», também adivinhar será «descobrir por um termo qual o outro termo», ou terminologia, «que com ele está em relação». Porque a Metaciência é, acima de tudo, doutrina ou signa das correspondências – e não remembras, ó lente, a cita do franco? Num admirável, amável sincretismo que inclui em si as essências, quididades ou qualidades, dos planetas e dos números, das letras e das cores, e das notas e perfumes, a ciência universal das imagens ou magias é usada, ou professada, com um único e uno propósito: redimir-se a si mesmo, remindo os outros seres; aproximar desventurados do vértice e do carme, liberando os seres humanos da vertigem da dor e – por que não? – do vórtice da carne.

Estamos quase a findar, e prestes a firmar. Na altura do Natal, o divo Cristo foi saudado por astrólogos, e teólogos, advindos de Oriente… E se alam, aqui, as Índias do Sopro, e são as núpcias do Anho com o filosófico Hermes. E nós voamos em Maria; adoramos, pois a Cristo, corroboramos Malraux. O século XXI será de arcano e Arquitecto; será galante, e dadivoso; religioso, ou não será. E rematamos, e aramos: é premente a Magia, é urgente o Amor. Os tempos, mais que nunca, são chegados – e a clara é pois a loira, e madura é a seara… A diva é o Deus, e o Deus é o divo. «Deus super omnia», «Deus super omnia» e «Dominus tecum». E tu ora, tu ora e labora, amigo leitor, prepara tu a messe para a vinda do Messias!!!


Lisboa, 03/ 08/ 2005

Paulo Jorge Brito e Abreu




Paulo Jorge Brito e Abreu nasceu em Lisboa, a 27 de Maio de 1960. Ex-aluno do Colégio Militar, tem vários livros publicados. Escreveu em 1980, o «Cântico Jovem Para a Tua Rebelião» e em 2007, o «Cavaleiro do Templo». Acima de tudo, Psicodramista, é Poeta, Cantor, Pensador e Artista plástico,  Tarólogo, Numerólogo e  Logoterapeuta.

Convento de Cristo, TOMAR

Fernando Morais Gomes: O Paulo Jorge Brito e Abreu diz que o Poeta é um incendiário. Inflama ou é inflamado?

Paulo Jorge Brito e Abreu: O Fogo, dessarte, é muito avita teofania. O «Agni», que é o Fogo, quer o «Agnus», que é o anho. Aduz e declara Cristo Jesus, no Evangelho, liberal, segundo São Lucas: «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado!» E por isso, ponderemos: quando Deus apareceu, a Moisés, no Monte Sinai, foi através da sarça ardente, e no primeiro Pentecostes da história da Igreja, se manifesta, aos Apóstolos, o Espírito Paracleto, sob a forma, ou figura, das línguas de Fogo. Mas indo, recto e correcto, ao âmago, ao imo, da sua pergunta: em matéria de Luz, só pode dar quem já recebeu. Pois movido, e comovido por a paixão, o Poeta não se pertence, o Poeta é instrumento nas mãos de poderes, ou de potências, muito maiores. Se o menestrel, nos séculos de antanho, era médium, Vaticano, entre os deuses e os homens, o Vate faz a Guerra Santa, o Poeta é soldado no Exército do Verbo. Mas pra cumprir, em mister, o seu ministério, não há-de, o Iniciado, roubar o sopro e a vida ao seu semelhante; pois seguindo e segundo o Autor dos «Provérbios», avorrece, o Senhor, as «mãos que derramam sangue inocente»: e quem matar, por isso, à espada, à espada morrerá. Guerra Santa, em vez disso, quer dizer: é que o Reino dos Céus se toma de assalto; havendo em vista derribar o Maligno, «a coroa da vitória», para Santo Agostinho, «não se promete senão aos lutadores». Pois se a seara está preste, os operários são poucos: é preciso anunciar, ao mundo inteiro, a pureza da Poesia. E relevar, e revelar a Boa Nova a todo o ser senciente. Pois se o pensar é pôr o penso, e se a língua nos liga, minha Poesia é vocacional, ela é uma «ek-stática» insistência na Verdade do Ser. Categórico, aqui, categórico é o Hegel: nada de grande neste mundo se faz sem a paixão. A Ideia se serve, das humanas paixões, para cumprir os seus desígnios; o indivíduo, ou Actor, é pois abandonado, sacrificado por o Verbo, mas de que serve, aqui, a perna partida dum operário, face à flama e ao fulgor do Mosteiro da Batalha??? Se o Poeta recebe, deveras, é pois pra doar, com liberalidade, o mistério da Poesia: o dom é oblativo e por isso donativo. Colaborando, com Deus Pai, no projecto Criacionista, cada Poeta é convocado para criar, o seu mundo, à sua imagem, semelhança e maturação – e o Verbo do inconsciente é oração, e unção, do sobrenatural. Queremos dizer: em sua forma mais alta, que é o Génio, Poesia é carme e a catarse, é liturgia sacra, e eis a escala e a escada, eis a escola, e o escopo, da lucubração.

Interior do Vaticano

Fernando Morais Gomes: A Poesia tem algo de profético?

Paulo Jorge Brito e Abreu: O «Profeta», para os Gregos, é o «porta-voz de um deus». Ele é, para os Hebraicos, o «Vidente», a «Sentinela», «aquele que interpreta os oráculos divinos». Em mistagogia, ou Minerva: Profetas eram Poetas das antigas civilizações – e Poetas são os médiuns, muitas vezes inconscientes, do Verbo divino. O termo erudito para Poesia, que é o «carme», significa, para os Romanos, «palavras mágicas, canto, esconjuro, encantamento». Quero eu dizer: Poesia, para mim, ela reata relações com o pensamento mágico; ela é, de alguma forma, o comento e o pensamento mágico-simbólico. E ponderemos, preclaro: Literatura, em sua forma mais alta, é sempre a expressão do preternatural, e eis em signa o ensinamento do Álvaro Ribeiro. Ou melhor: em minha juventa, e sem eu ter lido o Pierre Janet, tive acesso, supra-real, à escrita automática, que no gaulês se nominava «O Automatismo Psicológico». E bastas foram as vezes em que isso aconteceu: sob o estado, automático, duma auto-hipnose, o que eu escrevia, no «rêve éveillé», se efectivava, adrede, se tornava facto e feito no mundo real: e não remembras, ó legente, o psicodrama, a psicografia em Fernando Pessoa???
Ora o hipnotismo, desde Charcot, ele permite o estudo dos estados histéricos – e na centúria de novecentos, a Psicanálise é deveras o sonho do século; e citamos, na estese, os «Estudos Sobre a Histeria», e de Freud é, dessarte, «A Interpretação dos Sonhos». Se o inconsciente, para Lacan, está estruturado como uma linguagem, se o inconsciente, pra nós outros, é, de feito, o discurso do Outro, a mesma linguagem são os Mitos, as metáforas, e também as metonímias. E se abarcamos, abraçamos, o Inconsciente Colectivo, o «transfert» é terapia, o Tarot é Teoria da Sincronicidade, e por isso acatamos, e por isso anelamos, em Metanóia, a Psicologia Analítica, de Carl Gustav Jung. E é fértil, aqui, a fontana. E, se a precognição, no faz-de-conta, é feraz e é fatal, isso é o que acontece com meu «Cântico Imortal».

Santuário de Fátima

Fernando Morais Gomes: O que quer dizer quando escreve «Quando um Poeta dorme, ou quando um Poeta sonha, os Anjos sobem e descem pela escada de Jacob»?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Para responder, cabalmente, à sua pergunta, eu hei-de citar a Bíblia Sagrada. Assim reza, portanto, o Livro do Génesis: «Jacob saiu de Bercheba e tomou o caminho de Haran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o Sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o Céu; e, ao longo desta escada, subiam e desciam mensageiros de Deus. Por cima dela estava o Senhor, que lhe disse: «Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu Pai, e o Deus de Isaac. Esta terra, na qual te deitaste, dar-ta-ei, assim como à tua posteridade. A tua posteridade será tão numerosa como o pó da terra; estender-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul, e todas as famílias da Terra serão abençoadas em ti e na tua descendência. Estou contigo e proteger-te-ei para onde quer que vás e reconduzir-te-ei a esta terra, pois não te abandonarei antes de fazer o que te prometi.» Despertando do sono, Jacob exclamou: «O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do Céu». No dia seguinte de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro e, depois de a erguer como um monumento, derramou óleo sobre ela. Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz.»
E à guisa de escólio, asseverava, e averbava, o Blaise Pascal: «Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob e não dos filósofos e dos sábios.» Pois já Abraão, que era Avô de Jacob, ele tinha construído, em Betel, um altar a Adonai. Quer dizer, o Betel, a «casa de Deus», e bétilo é a ara, e bétilo é a pedra a Deus consagrada. Sejamos pequeninos, então, pra entrarmos, previdentes, no Reino dos Céus. E eis o que age, e eis o que asserta uma hagiografia: se o orgulho e a soberba dão origem, como vemos, à torre de Babel, na cidade com Deus as pessoas entendem-se, apesar de falarem as línguas diversas: e eis, em Jacob, os mensageiros, ou Anjos, intermediários entre Deus e os homens – e eis as línguas de fogo do primevo Pentecostes.  Para os povos avitos, o sonho é isso mesmo: é qual meio de comunicação entre a terra e o Céu: e não remembras, ó ledor, na Grécia Antiga, o Santuário de Asclépio, o templo de Epidauro??? Se Asclépio, medicatriz, era o deus da Medicina, as pessoas dolentes, ou doentes, eram postas a dormir em busca da «Salus»; na manhã seguinte o Sacerdote, interpretando os seus sonhos, ele indicava o remédio para a cura, e a ventura, do valetudinário. E sempre e ainda no Livro do Génesis, o patriarca José foi elevado, ou levado, ao cargo, sideral, de Vice-Rei do Egipto: ele interpretava, escorreita e rectamente, os sonhos do Faraó. Por aqui, dessarte, se lobriga: não foi Freud o primeiro, em continente europeu, a analisar os sonhos dos seus pacientes – e citamos, à guisa de apostilha, o nome e o Nume de Artemidoro de Daldis: no século II d. C., a sua «Onirocrítica» é o livro mais antigo de hermenêutica dos sonhos – e Morfeu, por isso, informa Orfeu, e sonhar, por isso, é ser Iniciado.

Universidade de Salamanca
Fernando Morais Gomes: A Poesia é terapêutica, louca, visionária ou lucidamente disruptiva?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Biblicamente falando, em Cristologia, «nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios.» E continua, noutro passo, o Apóstolo das Gentes: «A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem, mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus.» E ainda, na epístola, a prima, aos Coríntios fiéis: «Pois, já que o mundo, por meio da sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem, pela loucura da pregação.». Quer dizer o São Paulo: a sabedoria deste mundo é estulta e ela é bruta face à lauta Teosofia. Ao que nós aditamos: progride, a humanidade, graças aos Génios, aos Santos e aos Heróis; se um Viriato, um Camões e um S. Francisco são, para a nossa lógica, clinicamente loucos, tudo o mais, segundo o Pessoa, é palha podre e água chilra, é «cadáver adiado que procria». E na cita havemos dito. E aqui eu refuso, eu repilo e eu rejeito o Dr. Binet-Sanglé: médico, Psicólogo e professor, nome famigerado da «intelligentsia» francesa, ele publicitou, no início, feral, do século transacto, «La Folie de Jesus»: são quatro grandes cartapácios, que pretendem, malévolos, provar, a esquizofrenia, a alucinação, do que é, pra nós, o Verbo encarnado. O Verbo, afinal, assassinado. Com tal insolência, catilinária ou insciência, não nos espanta nem aturde o facto de Mário Saraiva ter escrito, pra conspurcar, dessarte, o carme e a Poesia, «O Caso Clínico de Fernando Pessoa». Mas regressando, e revertendo, no lance: se o Poeta é um médium do Verbo divinal, muita Luz, muito lume ou luminar, pode ofuscar, entontecer, e dessarte encandear: e eis os casos, e as causas, de Florbela Espanca, de Antero de Quental, e de Mário de Sá-Carneiro. E quanto, agora, ao grego miráculo??? Divinamente louca segundo o Platão, a Poesia é terapêutica segundo o Estagirita. Um reparo, porém: para o Magíster académico, a poética loucura é inspirada pelos deuses, é «hieromania» seguindo e segundo o Clemente de Alexandria. E acertemos, por isso, asseverando e assertando: Freud criou a Psicanálise retomando o caminho da Poética antiga: de tal modo que, ao receber, em Viena, o dramaturgo Lenormand, Segismundo, ao mostrar-lhe a Biblioteca, lhe confessou que a sua Psicanálise tinha por fundo, e fundamento, a Obra dos Poetas: e se o complexo de Édipo advém, dessarte, da leitura de Sófocles, a Catarse deve o nome ao fundador do Liceu. E para o Pai da Psicanálise, a personagem do Édipo tem o seu correspondente no Hamlet e «persona» shakespeariana. Pois seguindo e segundo a Psiquiatria dinâmica, o exprimir é espremer, o pensar é pôr o penso, o Teatro permite ao homem liberar-se das suas paixões, vendo-as, no palco, re-apresentadas – e eis, dessarte, em Saudade, a saturnal, o Carnaval, do inconsciente. Nesta linha de pensamento, e unindo Freud ao Estagirita, foi Jacob Levy Moreno o criador do Psicodrama – e eis aqui a «conterculture», eis aqui «encounter-culture», e é aqui que lucila o dia dos loucos. Divisa, portanto, e avisa o Moreno: tu cria o teu papel, acredita a «persona», manifesta e manobra a «megalomania existencial»: e em sonho tudo é legal, em Poesia tudo é lícito, em cima do palco nada é impossível. E se se fala, em Psicanálise, de uma cauta Catarse, se fala, em Pierre Janet, da dissociação, da hipnose, da moral desinfecção. E ao dispor do Psiquiatra é como ao dispor do Crítico literário: eles têm, selectos, o sonâmbulo dos sonhos – e palavras, palavras, tão-somente as palavras.

Ruínas de Conímbriga

Fernando Morais Gomes: Quem é Paulo Jorge Brito e Abreu?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Acima de tudo, sou Poeta e Filósofo, sou um ser religioso. Que eu sou, na colecta, o Cantor e Artista plástico. Saúdo as Maias e os Magos. Saúdo a Roma e a harmonia, procuro amar a Deus com todo o entendimento. Que eu aprendi, com o tempo, a apreciar e a prezar a impressa Palavra. E a ter cuidado, outrossim, com as mensagens e palavras por mim proferidas. Ou em lhaneza de chão plano: dia em que eu não escreva, pra mim, não é dia, eu faço da escritura uma oração quotidiana. E como eu não tenho prole, colecciono, com fervor, os alfarrábios, missais e livros antigos – e em livre, e a lavra, eu amo, na colecta, os volumes arcaicos. E a música, o Museu, e as palavras orfaicas. E na Kabbalah, cabal, e na Fonte Cabalina, me dedico ao «Liber Mundi», ao Tarot, ao nome e ao Nume da Numerologia. E tudo é pouco, e tudo é pouco, para aquilo que eu anelo: o transmitir, o transcender e o transformar o mundo.

Prof. Pinharanda Gomes

Fernando Morais Gomes: Que coisas boas e novas acha que a sua Poesia transmite?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Sem vaidade, nem jactância, tem conceição, tem Maria Estela Guedes a recta razão: eu sou um caso de heteronímia pós-pessoana. Quero averbar, e asseverar: nos quase oito lustros da minha Poesia, eu percorri a variedade, a multiplicidade de movimentos e escolas – e fui Selene, e fui solene, simbolista, decadentista, Surrealista, fui futurista, paulista, e romântico e Beatnik. «Verbi gratia», na Graça: quem lê o «Cântico Imortal», o «Restaurante Sul-América» ou o «Cântico Jovem Para a Tua Rebelião», não reconhece, em mim, a pessoa que escreveu «Duma Oração Portuguesa», e os sonetos sonantes dumas «Loas à Lua». E posso declarar, publicamente, que sou discípulo, e discente, dos maiores sonetistas da Língua Portuguesa: o Camões, o Bocage, o Antero de Quental. Me seduz, desde a juventa, o orfeico camoniano e a Lira de Elmano, e pendo-aprendo, desde jovem, com o Génio que era um Santo. De tal modo que assertamos: em Gaia Ciência, entoa, o trovador, a palavra certa para a nota correcta – e se a Língua é o que liga, a minha Linguagem é, deveras, a Linguagem dos Pássaros. Não reconheço, na métrica e na rima, a polícia, o verdugo, a camisa-de-forças; são dilectos e as sílabas que sonham cantando. E outro timbre, dessarte, que aluz e seduz em minha escritura: o seu carácter místico, mistagogo, esotérico mesmo. O liar, a liança e ligação com a Ordem da Milícia dos Cavaleiros do Templo – e nisto sigo eu os meus ancestrais. Actualmente, a minha prosa, e prosa filosófica, teodiceica, e teológica até, ela aprova, e ela aplaude, uma Ontologia dos valores poéticos – e se alia, ou consorcia, com o grémio, o grupo, da Filosofia Portuguesa. Existindo, por isso, e sempre e sempre insistindo. E vetando, e dirimindo, o que é fácil e fútil.  

Interior da Sé de Lisboa

Fernando Morais Gomes: Vivemos sob o signo da Luz? O seu mundo é luminoso ou é feito de trevas iluminadas? E Sintra? É terra de Luz ou terra de trevas?

Paulo Jorge Brito e Abreu: É premente, em Portugal, uma axiologia veraz, ou teoria dos valores. Que infelizmente, um pouco por todo o mundo, os quesitos propalados, ou propagados, pelos meios de comunicação social, eles resumem-se, deveras, a dois: o sexo venerado e o dinheiro idolatrado. «Quando se trata de dinheiro», diria Voltaire, «todos professam a mesma religião». Mas se antes de procurarmos as riquezas devemos nós buscar o Reino de Deus, ele há até Igrejas que dizem que por dinheiro nós seremos perdoados dos nossos pecados. Mas os «Actos dos Apóstolos» são peremptórios: se as finanças e os fundos são todo-poderosos, o Espírito Santo não se compra com dinheiro. Mas vendo a pobreza, o Cristo ultrajado, e vendo, outrossim, a falta do Pão, diz rectamente o adágio: o dinheiro é como o estrume, ele só é útil, dessarte, se for disseminado. De tal modo que eu disserto: uma dilucidação, recta e escorreita, da figura do Messias, acabaria, cabalmente, com a existência das seitas. Quanto a mim, eu tenho provas, probantes e professas, da existência de Deus, e digo, com Schopenhauer: quanto mais desenvolvidas forem as ciências físico-químicas, mais se torna premente o Anjo, a Ontologia, a necessidade metafísica. Que eu não preciso, mesmo nada, das charlatonas e videntes, eu a elas prefiro a carne do porco e a charcutaria.
Mas avancemos, ovante, e vamos avante: se «ao princípio era o Verbo», não há nada que faça o paregórico, ou paliativo, que não faça, por seu turno, a sápida, a escorreita, e a recta oração. Pois seguindo e segundo o Émile Coué, eu recito, de manhã, e eu repito, à noitinha: «Todos os dias, e cada vez mais, eu estou, no pundonor, cada vez melhor». Quanto a Sintra, como Nova iniciática, só pode ser, nitente, uma terra de Luz: se Palácio é o paço, se é paládio, no pólo, e a Palas Atena, se visitem, «verbi gratia», além da Quinta da Regaleira, o Palácio Nacional da Pena, o Palácio Nacional de Sintra, o Palácio de Seteais, o Palácio de Monserrate, e, outrossim, Companheiro de Emaús, o Palácio Real da santa Queluz. Pois dizem estudiosos: a História se faz de duas maneiras: ou estudando os documentos, ou esquadrinhando os monumentos. Dos monumentos, fiz a lista, e quanto aos documentos: o espírito sintrense é seminário, selecto, do serafim, sereno, e da Septuaginta, é ele o alfobre, e alfarrábio, do afloramento e, a flux, da Hermética Irmandade dos Amigos da Luz.

Palácio Nacional de Queluz

Fernando Morais Gomes: Há Deus ou deuses? É o homem o centro das coisas ou um títere manobrado pelo destino?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Qual rapsodo, ou repórter, a Filosofia Portuguesa de Leonardo Coimbra nos dá, religiosa, a resposta: «O homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro dum mundo a fazer». Ou segundo Jacob Levy Moreno: «actor de Deus no palco do Universo». Quero eu dizer: Deus pôs-nos, francamente, neste mundo, mas as palavras e os papéis são da nossa Autoria; cabe ao homem concluir a Criação, que Deus somente iniciara. Ou segundo o Autor de «O Mundo Como Vontade e Representação»: «O destino baralha as cartas, mas somos nós que as jogamos.» Com o tempo eu pendi, aprendi, e compreendi: a semeadura é livre, e a colheita, obrigatória, só colheremos aquilo que semearmos, e quem ventos semeia, colhe tempestades. Nós somos medidos, pelo nosso Karma, com a mesma medida com que os outros medimos – e estas palavras são familiares para os ledores, e legentes, da Bíblia Sagrada. O homem que labora com o Logos, e a língua, ele deve entender: a semente é qual Palavra para o evangélico S. Lucas, ou melhor: se a linguagem, aqui, é a Casa do Ser, palavras de Amor, elas geram harmonia, palavras virulentas, elas geram violência. Explícito e lícito é o Autor, e promotor, do Deuteronómio: «Nem só de pão vive o homem; de tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá.»
Para os jovens que me lêem eu lavro o seguinte: Eucaristia é qual fracção, Nova Aliança, e a partilha do Pão. Que se habitue a juventa a celebrar a Verdade. Que me perdoe, o ledor, uma autocitação: «Palavra é como o Pão e a Palavra é como leite, é pois alento, acalento, e alimento no deleite.» Habituemo-nos, portanto, a doar o conduto, e, com a oblata de vida, uma parte, e partícula, da nossa pessoa: para o evangélico Autor dos «Actos dos Apóstolos», «A felicidade está mais em dar do que em receber». Por isso aremos, e professemos. E nós oremos, Irmãos.

Colégio Militar
Fernando Morais Gomes: O que ainda não fez que não quisesse deixar de fazer?

Paulo Jorge Brito e Abreu: Gostaria de ser experto, e ser perito, em Ioga, Astrologia e no lauto Latim. E de acurar, e depurar, os meus conhecimentos da Ciência Kabbalah. Quisera ser um poliglota, e falar, pelo menos, sete línguas estrangeiras. Quando estiver, a seara, pronta para a colheita, gostaria de ser Teólogo – e doutorar-me, deveras, em Filosofia. Gostaria de formar, em Firmamento, o Centro de Estudos Luso-Brasileiros – e também, em lis e lais, o Centro de Estudos Orientais. De unir a Ciência das Letras à Ciência dos Números – e esta, outrossim, à Ciência dos Sons. E apoiado em Mestres como Gauguin, Van Gogh e Salvador Dali, gostaria de participar, entusiasta, em exposições de Artes Plásticas, e cultivar, celebrante, a ciência do Belo. De vedar o meu atro, e cantar no Teatro. De ser experto e ser o truque, de gravar, primoroso, um «Audio-Book». E incluindo os alfarrábios dos séculos XX e XVII, e XVIII e XIX, de reunir pelo menos, em minha estaleca, 11. 000 livros na minha Biblioteca. Gostaria de ser Teólogo, e, nos jardins, de comprar, brevemente, uma casa em Mem Martins…

http://www.alagamares.com/entrevista-com-paulo-jorge-brito-e-abreu/



Leitura do Poema «Duma Oração Portuguesa» de Paulo Jorge Brito e Abreu pelo próprio, em 12.11.2016, Sintra, MU.SA - Museu das Artes de Sintra.

Autores:
Paulo Jorge Brito e Abreu
Filipe de Fiúza
1ª edição, 2016
Capa: Paulo Brito e Abreu
Contra-Capa: Filipe de Fiúza
ISBN: 978-989-96640-3-6
Depósito Legal: 411156/16
A5, Interior a cores.

Índice

PAULO JORGE BRITO E ABREU
Duma Oração Portuguesa...................... 21
Onze Sonetos........................................... 25
Poemas Vários......................................... 39
Páginas de Filosofia Poética................... 51

FILIPE DE FIÚZA
Das Origens Catacósmicas..................... 71
Monólogo do Amor................................... 85
Teoria da Liberdade................................. 93
Manifesto do Fiuzismo............................. 99
Carta a um Poeta de Outra Galáxia...... 103
Textos e Outros Poemas........................ 107










Misticismo e Poesia

Autor: Paulo Jorge Brito e Abreu

Do livro LOAS À LUA, 1996


«Igne Natura Renovatur Integra.»

À Hermética Irmandade dos Amigos da Luz.


I

Ó noite odiosa e vil! Com uma apoplexia,
Em noite de Dezembro mais vil e sanguinosa,
Abandonei meu lar, pra ver se descobria,
Nalgum coral oculta, a essência da Rosa.

Furioso, bato a porta. No imo da noite,
Na latrina da noite odiosa e obscura,
Tive quatro visões que me foram açoite,
Açoite prà minh’Alma de vícios impura.

Na rua vejo um velho vergado p’la idade,
Mil rugas no seu rosto, os olhos carcomidos,
Que me dizia assim, sem dó nem piedade,
Na minha face vendo o estigma dos bandidos:

«Não sabes que ser velho é estar na noite vil,
Sem fortuna, sem Paz; viver coa solidão
Também não viverás, ó jovem d’albas mil.»
E afastou-se buscando uma côdea de pão.

Acima vejo um jovem de pernas mutiladas.
Era cego, era surdo, e estava exposto ao frio.
Tinha n’Alma uma cruz de pontas afiadas,
E no peito esse pus que possui o vadio.

«Toda a noite a implorar, sem ninguém que me acuda!
Sou Lázaro, na praça, orando em desconforto.
Minha Mãe, minha Mãe, tu vem, teu filho ajuda!
Por que deste, Mãe minha, ao mundo um vil aborto?»

E eu tremo, mas caminho. Os dedos encrespados,
Que Inferno, penso eu! Que noite mais abjecta!
Caminho e vejo ali, pra mal dos meus pecados,
De criança o cadáver sobre uma sarjeta.


II

Maldição, maldição! Toda a noite esse velho,
Toda a noite o doente, o cadáver, a peste,
Por ali ficarão, só pra meu destrambelho,
Dando o pus à rapina e nutrindo o cipreste.

Maldita sejas tu, cadela dos Infernos,
E maldita, maldita, a Porca louca, louca!!!
Mas enquanto eu cuspia líquidos internos
E a minha voz cansada ia ficando rouca,

A Rosa me apar’ceu de dulcíssimo aspeito,
Suave e virginal, de pétalas de arminho…
Ela pôs sua mão no meu amargo peito
E me disse: «Não sofras, eu sou o Caminho.

Sou a deusa, meu filho, que à terra vem pura,
Suave e virginal e ornada de enfeite,
Do Inferno vos livrar. Eu sou a Formosura,
Desde o Verbo a vós vinda quais pombas ou leite.»

«Mas Rosa, o sofrimento, a marca do pecado,
Por que não os tornas tu no mel da tua seiva?»,
Disse eu, e disse a Flor com ar amargurado:
«Tens razão, filho meu, são todos minha leiva.

Existe o mal, meu filho, eu sei que existe a Dor.
Mas no seio da terra de vermes coberta,
Irromperá, gloriosa, a Rosa do Amor,
Quando a Cruz for a Luz e a porta for aberta.

A Paz será por fim!», me disse a amada deusa,
«Tu tem Esp’rança, meu filho, teu tempo virá…»
E foi-se a meiga Flor, mas eu, como quem reza,
Recordo esta lição: a Paz enfim será!!!!!!!!!!!


Lisboa, 24/ 12/ 1990


AD MAJOREM DEI GLORIAM


PAULO JORGE BRITO E ABREU