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MARIA JOSÉ VERA E O CAMINHO DA LUZ

( «in memoriam» do Poeta António Vera )

«O homem fala, então, mas é porque o símbolo o fez homem.»

Jacques Lacan

O nome é o Nume. O Astro é o estro. Requer, este «liber», o falante e aflante. E por isso, preste e pronto, e por isso divisamos: ao mentarmos sobre o livro de Maria José Vera, não podemos olvidar: a Autora profere, ela professa, a amada Psicanálise, sem temor, mas com tremor, há mais de trinta anos. Isso aduz, ou quer dizer, que a Autora realiza, pronta e preste, uma operação sobre a linguagem. Quer isto significar: um pôr-se em obra da «alêtheia», um pôr-se em obra da Verdade, um doutrinar, e ensinar, sempre através do signo linguístico. O homem se faz homem, por isso, ao partilhar a linguagem, quero assertar, o contrato social. E para bem apreender, pra bem compreender Maria José Vera, que faça, o legente, como o culto Cassirer  - e em lugar de distinguir entre animais racionais e os animais irracionais, que destrince, o ledor, entre animais não-simbólicos e animais, ou falantes, providos de símbolo. Se o Ego anela, e apela, por o discurso do Outro, aquilo a que chamamos inconsciente é um lugar desocupado onde se consuma a autonomia da simbólica função. A propósito, então, de Maria José Vera, nos remembra, e alembra, Claude Lévi-Strauss: «Os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam. O significante precede e determina o significado.»

Ou melhor: se o mundo descrito em «O Complexo de Lúcifer» é, de certa maneira, o esquecimento do Ser, Maria José escuta, ela escruta, as vozes recônditas que vêm do Ser. Sempre tendo, por isso, em conta, que o «id fala», que o «ça parle», que o inconsciente, nos sonhos, se manifesta através da lítotes, das metáforas, e das belas metonímias. O sonho, por isso, é gramatical, ele é um texto que merece ser descodificado. O crítico literário é deveras hermeneuta – e hermeneuta é também o Psicanalista. Sigmund Freud, afinal, o hermeneuta de Sófocles. Aquele que, para aclarar a Psicanálise, retomou o caminho da Poética antiga. E não será Poesia em prosa, com todas as veras, «O Complexo de Lúcifer»??? Não será que o acalanto é alento e alento, o alimento??? O Eu, para Rimbaud, ele é um Outro, afinal – e a força da Palavra, pra Maria José, sai de si em busca de si própria no Outro. Que o edível é edule, o educar é eduzir e eduzir é seduzir – e o «sermos dois», na «communio», é o princípio, ou início, da Revolução. Ou melhor: na clínica do estilo, no horizonte da Análise a Liberdade fulgura – e temos, então, Maria José Vera, como a figura-fulgor e a livre-pensadora. Ouçamos, na cita, a promotora e Autora: «Eu sou aquele que se descobriu no ponto de um lugar nunca passível de ser ocupado por nenhum outro» - e tal como, de feito, em Vergílio Ferreira, a existência precede a essência, e está, Maria José Vera, condenada a ser livre. Na grafia, ou gramática, do inconsciente, ela é o Homem, o drama e a tragédia, a cena, o actor, o guião e fazedor – e é o que se passa, «verbi gratia», no trabalho do sonho. Não será, entanto, «O Complexo de Lúcifer», qual auto-análise existencial??? Nos afiança, de facto, a feitora: «Canto, com a minha solidão, o inconsolável desespero dos que remetem para o belo a única herança. O património. O tesouro que resta. O belo e eu somos massa da mesma solidão. Constituímo-nos no lugar de onde partiu o afecto. Toda a estética me faz chorar: dá-me a ilusão de comigo partilhar esse lugar que foi ( nunca foi ou jamais o será ) o lugar do amor.» Ou melhor: como em Jacob Levy Moreno, a Autora faz do jogo o auto e o teatro, o Psicodrama preste – e a paixão, por isso, é patética, a auto-análise é entanto passional. Remembremo-lo, entretanto, mais uma vez: em amor, ou melhor, numa harmonia das esferas, o papel de Maria José é único, dessarte, inconfundível também. E mais, por isso, do que a contracultura, este livro relata a cultura de encontros. Que disserta, desta sorte, Maria José: «Eu próprio já parti, e não me comovo. De mim fica a beleza do que criei, no lugar onde havia de ter sido o encontro.» O convénio, confluência, o contubérnio. E trago aqui, à colação, a ex-centricidade do Ser. «A ferocidade que é esquecida e vilipendiada pelos que possuem por meta o sonho da tranquilidade do lar.» Quero eu dizer: no «pensamento selvagem», de Claude Lévi-Strauss,  cotejemos então a cita com Fernando Pessoa: «Triste de quem vive em casa, / Contente com o seu lar, / Sem que um sonho, no erguer de asa, / Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar!!!»       

Temos, então, que o material mais importante do Psicanalista são, propriamente, as palavras. Palavras, palavras, palavras. Tratada, de feito, por Josef Breuer, entre Julho de 1880 e Junho de 1882, Anna O. ( ou, com mais rigor, a Bertha Pappenheim ), ela deu, à Psicanálise, o nome de «talking cure», a cura, dessarte, através da palavra. Curiosamente, tal Catarse é, pra Pierre Janet, a moral desinfecção – e mitologicamente, etimologicamente, Psicologia é, de feito, uma «fala da Alma». Do que se trata, em Psicanálise, é fazer com que, através da fala, saia, do sujeito, um segredo patogénico. Ora a «Catarse» é uma palavra grega proveniente dos Mistérios e popularizada, arcaicamente, por Aristóteles, deveras. E se a «catharsis» é o meio de liberar as paixões vivendo-as, na verve, de forma imaginária, o dolente participa, ou toma parte, nos dramas mistéricos, os de Elêusis, por exemplo, ou da «mystery play» - e não estamos, veramente, não estamos nós em plaga de Jacob Levy Moreno??? A Psicanálise, afinal, é o sonho do século, são filósofos dormentes, é a «linha oblíqua e mimosa entre o dia e a noite.» Queremos, nós, aqui, dizer: leitora de Virgílio, de Lautréamont, de Lord Byron, o bragante, a Autora, afinal, é senhora «do paradoxo e da imponderabilidade». Passa, por isso, a lógica matemática, por os princípios da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído – mas este livro de Vera, ele tem por essência o Mito e a mentira. Ouçamos, agora, uma cita, um excerto, das minhas «Loas à Lua»: «Mas se a ficção e os fantasmas do estado religioso forem considerados como mentiras poéticas ou puramente utópicas, resta agora afirmar que esse tipo de mentiras ou ficções são, para aqueles que nelas crêem, mais plausíveis e reais que a prosaica realidade.» Contar, por isso mesmo, os sonhos e mentiras: eis o múnus, o cargo, do Professor de Literatura. «Sou um exilado», nos remembra, ainda, Maria José Vera. E mais à frente, afinal: «As minhas raízes estão no pensamento e no saber, nos quais procuro afiliação. Digo «procuro», porque não encontro. Como também nunca encontrei um corpo de mulher, um continente único, que pudesse designar por «mátria». Simulo ter pátria, língua, família e pertença, para poder existir.» Ou melhor: ela simula, e assimila, o Nome do Pai. «Afiliação e pertença? Sim, uso-as para sobreviver. ( … ) E o meu desejo inscreve-se num lugar outro, que não sou eu.» Nos adverte, na cifra, Sá-Carneiro: «Eu não sou eu nem sou o Outro, / Sou qualquer coisa de intermédio, / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.»

Como aventámos mais atrás, é exemplo, «O Complexo de Lúcifer», de Psicanálise, ou análise, existencial. Ele é «Mitsein» e é «Dasein», é uma tópica insistência na Verdade do Ser. Queremos assertar: se o Homem, para Sartre, é projecto, ele é também, para o Heidegger, agora, dejectado no mundo. Tal como na fenomenologia, de facto, de Ludwig Binswanger, a ex-sistência do sujeito é tomada na sua tríplice dimensão do tempo, do espaço, e da mundanidade. Quer-se dizer: se o «topos» do sujeito é isolado, exilado, ou fora da ilha, urge, aqui, um Ser para os outros, a união, o encontro, do Eu com o Tu. Ser dela capaz, como o lúcido Lúcifer, é portar, e transportar, o tema e o lema, o emblema da Luz. Quer saber, o legente, qual é, na História das Ideias, o signo, e a signa, dos «Mestres da Suspeita»??? Ele é, para Paul Ricoeur, o tríplice nome de Freud, de Marx, e de Friedrich Nietzsche. Uma treva que dá Luz, a ruptura inaugural. Ouçamos o que asserta Maria José Vera: «A minha liberdade é negativa porque não tem lugar onde se acoitar. Nem possui lar, nem país. É apátrida de concepção». E esmiuçando, mais à frente: «Não tenho lugar para existir. A minha pátria é o meu desejo. Sou vagabundo. Estou sempre de passagem» - e remembra-se, o ledor, da ex-centricidade do Ser??? Se Maria José Vera é libertária Poetisa é que ela inverte, reverte e subverte o centro do mundo. Ou melhor: ela trova e ela estorva, ela é Mestra, aqui, da Grande Recusa. Revertendo, por isso, a Lord Byron, ela diz: «Não entrego a minha alma a espíritos ou a sacerdotes. Esses só obtêm de mim a minha força e o meu desdém. Ele quis, no derradeiro momento, em «Manfredo», alcançar na morte a solidão da vida. Eu alcanço na vida a solidão da morte.» Pastora, como vimos, de palavras, desvela, com a dextra, Maria José – para velar, e ocultar, com a sestra e sinistra. E disserta, a Autora, a dado passo: «Um dia remeter-me-ei ao silêncio. Talvez através dele me reencontre.» Porque todo o conhecimento, ele é forma, sagaz, de reconhecimento. E porque o ser, para Berkeley, é ser percebido. E porque o mundo, pra Schopenhauer, ele é a minha e é a sua representação. Tal como em Heraclito, a vida, para Maria José, é a morte dos imortais, e a morte dos mortais é a vida de imortais. E a propósito da Psicanálise, ouçamos, ainda, o heraclitino: «O tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança». Esta frase resume, como poucas, o fenómeno, figadal, de «O Complexo de Lúcifer». Ou melhor: se o jogo, aqui, é contra o jugo, o princípio do real, ele é inverso, e ele é contra, o princípio do prazer. Para afastar, por isso, a angústia, o Homem pois apela ao «divertissement», ao boato e à charla da lenda leitora. «Verbi gratia», na verdade, Juvenal, nas suas «Sátiras», ele despreza e verbera os Romanos da decadência: pois, segundo o Poeta, eles só pediam o pão e espectáculos de circo. Dizem, por isso, Espanhóis: «Pan y toros» - e já estamos no âmago, no íntimo ou imo de «O Complexo de Lúcifer». Lúcifer, ou melhor, o mundo gentio que nos vem dos avitos. Se as multidões sentem prazer com o sangue derramado, é porque Jung, de feito, é figadal – e o homem civilizado ainda arrasta, atrás de si, a cauda dum sáurio. E se canta aqui a Vénus, na Musa e no carme, é porque o hino, ou himeneu, é o rompimento do hímen. Se imaginar, entanto, é como fazer, imagina-se, por isso, em estado mágico-simbólico, e a Arte é pois regresso ao mundo da infância. E só ficciona quem finge, quem sonha e fabula. Dá-se Poesia, em nós outros, quando a gente sonha – e entra, em Metaciência, e entra nas imagens, nos mitos, nas metáforas. Pois, etimologicamente, na língua gaulesa, o «trouver», ou «encontrar», é ir ao encontro da trova e do tropo. «O Complexo», por isso, de «Lúcifer» - e eis aqui o sintoma, aqui eis a retórica do inconsciente. E é tempo de aduzir que o sonhar e a quimera, é qual «imago», paternal, do Poeta António Vera; a ele então a trova e o reconhecimento. Ou o saber, veramente, «que de mim para o outro vai uma ponte feita de corpos e de representações. Atravesso a ponte, mas os pilares feitos de mim e do outro permanecem estacas entre dois pontos inexpugnáveis», o encontro, quando o há, é qual miragem – de me encontrar ausente da minha viagem. Meditemos, entanto: se o sinérgico, ou simbólico, é um sistema de representação baseado na linguagem, Lévi-Strauss compara, a «tékhne» do xamã, com a técnica, a cura, psicanalítica. E o digamos, então, mais uma vez: a Psicanálise é um jogo, ou Psicodrama, que se apoia, verazmente, no falante e aflante.

E de mais falámos nós. E na alegria fantástica das alegorias, de que se trata, este livro??? Duma Ludoterapia ou Logoterapia??? Talvez, no Mito, de uma Arterapia. Cabe ao leitor avalizá-lo – e a divisá-lo, e avisá-lo, fazer o «transfert». Já falámos, aqui, de António Vera. E para Freud, o feitor, os sentimentos inconscientes do dolente pra com o médico são qual traslado, as traduções, de uma relação recalcada com as imagos parentais – e a criança, por isso, nos persegue, e o futuro é qual passado em preparação. O inconsciente, preclaro, é a letra. A clínica é do estilo. Se, no dizer de Jacques Lacan, «uma palavra por outra, é a fórmula da metáfora», ouçamos, com todas as veras, Maria José Vera: «Neste mundo de substituições, de que sou mestre, tudo tem um preço. Excepção feita à mulher que eu nunca amei, precisamente por nunca a ter amado.» Talvez, então, o sonho. Talvez então a vida, afinal, seja a morte. No fim da «mise en scène», frente ao espelho, eu digo, sideral, com Maria José Vera: «Mesmo depois de morto dominarei, pela palavra que pronunciei e que escrevi, o pensamento dos outros. Dominá-los-ei porque usarão a minha palavra para se expressarem. Dominá-los-ei, a esses, que não foram amaldiçoados – ou abençoados? – como eu, com esta força.» A força, afinal, a força do Verbo. Do autêntico, e vero, direito à diferença. A diferença encarnada em Escritora mulher. Ou encarnada, a diferença, em «O Complexo de Lúcifer». E quase à beira do fim, é tempo de alembrá-lo: bem melhor que o sedativo, o psicotrópico e calmante, é, na providência, o poder da palavra. A palavra que mitiga, e que move montanhas, por o genésico poder da imaginação. Que em Maria José Vera, o pensamento é movimento, o pensar é sopesar as palavras sensíveis. E falámos, aflante, de Maria José Vera. De uma mulher, ou terapeuta, a braços com o destino. Que ela a criança amadurece, e a esperança da messe insiste na semente. Porque sim. Outrossim. E para sempre.


Que Luz, 07/ 02/ 2018

SIC ITUR AD ASTRA

SOCIEDADE DE ESTUDOS DE FILOSOFIA E LITERATURA COMPARADAS

PAULO JORGE BRITO E ABREU

Universidad Pontificia de Salamanca

POESIA, AMOR E METAFÍSICA EM VÍTOR-LUÍS GRILO

«Procurar o infinito é descobrir o impossível, saber que não se existe
é conseguir a existência.»

João José Grade Duarte Belo

Em crítica acribia, nós em escorreito, no recto, e correcto linguajar, dêmos a voz, e a vez, a Vítor-Luís Grilo. E na escolástica do escol, e na escola da Poesia, tragamos à colação o Heidegger, agora: é que «O pensador diz o Ser, o Poeta nomeia o sagrado» - e afinal já falamos, com propriedade e comunhão de consciências, da «Noite dos Tempos», de Vítor-Luís Grilo, ela é qual a «Noite Escura», de S. João da Cruz. Quero eu dizer: seguindo, segundo Freud, e Vítor-Luís Grilo, a Noite é o sonho, o sonho é via régia para a explanação, e exploração, da parte Inconsciente. O Inconsciente que é, para Lacan, o discurso do Outro, o Outro que habita na Poesia de Vítor. Separação, temporária, entre a Alma e o corpo, o sonho é Psicodrama, ele é regresso, no drama, ao pensamento selvagem. Que a «Noite dos Tempos», é força dizê-lo, é fruto, aqui, das duas paixões: o êxtase e o espanto. O espanto, veramente, que leva os homens a filosofar, o êxtase que é, no sonho, uma «alêtheia», ou melhor, uma alucinação, involuntária, dos sentidos. Depois desse altar, ou alumbramento, o Poeta desfila, «pelas ruas da vila, levando a Boa Nova», anunciando, por isso, a Boa Nova, a toda a criatura. É que o imo, o íntimo ou lima, para o Poeta, é «algo transformável que haveria de se chamar viver»; são a formação e a transformação, são as Ciências da Vida de Wilhelm Dilthey. Ciências da Vida, segundo o germano, são outro nome, numinoso, para as Ciências Sociais e Humanas; nelas ocupa, a Poesia, relevante lugar.        

E n’ «A Dinâmica da Luta», ouçamos, dessarte, o rapsodo: «Às vezes a poesia, outras a vida, / são lugares antigos que habito. / Por vezes ninguém me convida / fico triste, é noite, grito, / para ver se alguém me escuta. / O resto são sinais, é a dinâmica da luta.» Neste magnífico soneto, o Poeta molda, moldura, e modela as palavras – e tudo, aqui, é rapsódia, e tudo o que lhe resta são palavras, palavras. Ou melhor: como único espírito, e única espada, suas lavras, noitadas, são deveras as nitentes – e são as letras, aqui, como as estrelas, e são as letras, de Vítor, luminares em lavaredas. Liberando e laborando, lavorando em lavaredas – e eis o carme e o charme, e eis a mira, e o móbil, de Vítor-Luís Grilo. Um pouco mais longe e aventaríamos a hipótese: se quem canta seu mal espanta, toda esta Literatura, torriense Literatura, é qual a forma de Catarse, é limpeza e ablução, letradura como a forma de evacuação. Literatura como a Psicologia, ou fala da Alma, e Poesia, dessarte, psicanalítica; o Poeta escruta, esquadrinha, e analisa a sua Psique. Que o afirmar é tornar firme, o exprimir, aqui, é como o espremer, e Vítor-Luís Grilo só prova, Profeta, através da provação. Da privação e provação. E ora ouçamos, portanto, o poema que dá o título ao volume: «Na noite dos tempos / a minha tristeza é barco / que não navega. / É flor que não canta. / É escultura e espanta.» Sublinhemos: «E espanta». E trazendo à colação o mavioso André Malraux, a «Noite dos Tempos» não é fácil nem fútil, ela é, na Arquitectura, o arteiro anti-destino. Queremos dizer: não se apresenta, neste livro, Vítor-Luís Grilo, como o dono, possessivo, do Ser, ele é Pastor, e pegureiro, das palavras arteiras. E se outro predicado não tivera o Autor, ele já seria Numinoso, mas há outro, além disso: assertando, dessarte, e dissertando na sorte, Vítor-Luís Grilo é escolástico e escada, ele conduz, veramente, as crianças à escola. A isso chamavam, os Antigos, uma analecta e selecta, ou melhor, o presentar-se um pedagogo. Todo o discente, de feito, apela à docência, e se o Poeta, por isso, é a porta, o seu múnus conforta, a tal nos transporta a Literatura de Vítor. Não falávamos, nós atrás, do acalanto, do alento e do alumbramento??? Prendamos, então, a Poesia de Vítor, de encontro ao peito nosso. Pra bem compreendermos, na preensão, o colaço e o Poeta, um asserto e um reparo: na cosmovisão do Pinharanda Gomes, Literatura para o sagrado, Literatura para o segredo; contra o mando e contra o mundo, grande parte desta Poesia, ela foi escrita no deserto. À prova do deserto, a «um jardim sem flores», foi levado, Agricultor, o nosso Poeta, mas ele volve o solo estéril em viridente vale. Tal como em Miguel Torga, a Poesia de Vítor, de Vítor, de Vítor-Luís Grilo, elas são, afinal, as pedras lavradas. E quanto, agora, ao Psicodrama??? E quanto, afinal, ao «rêve éveillé»??? Se bem falámos, mais acima, do «songe» e do sonho, um comento mercuriano: morre todas as noutes, o Vítor-Luís Grilo, pra voltar a nascer no dia seguinte, ou melhor: de noite, as visões, e de dia o relato das alucinações – e é assim, esquadrinhando, é assim que ele encara o ofício da escrita. Ou melhor: a tarefa de Vítor é «Meu trabalho de bordar / com fio de ouro, / com vinagre e safiras / as palavras, / até que venha uma ave branca / pousar sobre elas»: não será, essa «ave branca», a Vedra e a Pedra Filosofal??? Quer o Poeta conciliar, ou ligar, o varão com a matriz, o dia com a Noute, e o Enxofre com o Mercúrio – e tal se faz, «Homo Viator», na viagem da «Via», da «Veritas» e «Vita»; quer ele dizer: é Poesia uma vianda, é Poesia uma oração por a Paz universal: e não remembras, no carme, Ulisses Duarte??? Não alembras João Belo??? Tu não relembras, Via Láctea ou vianês, António Manuel Couto Viana?????? Em qualquer destes Poetas, ex-siste, como em Vítor, o Amor e Metafísica, uma Ontologia, afinal, dos poéticos valores – e falamos do Verdadeiro, da Bondade e da Beleza – e da Palavra afecta ao culto das virtudes teologais. Poesia afecta à Graça, ao Filaleteu, e ao culto do Deus Pai. E mesmo que não seja um soldado da «polis», mesmo que não seja, Vítor-Luís Grilo, o servente e o servil, ele se move, manifesto, no polido, na «politeia» ou polidez. Pois diz, siderado, o Poeta: «Falei-te de quem escreveu / muitas páginas sobre o deserto.» E ainda, lucilando, elucidando: «Todas as palavras me fazem acreditar» - e é o generoso, é o ingénuo pensamento, é a filosófica Fé de que fala o Karl Jaspers. Ou seja: há palavras a mentar, e há palavras a mentir, ou melhor, a fabular. O Professor de Literatura, ele é solerte e é sagaz contador de mentiras, de mentiras que movendo, e comovendo o espectador, se transmudam, geniais, em verídicas verdades – e ó que se passa, viridente, é o que se passa na Poesia de Vítor-Luís Grilo, que ele é Grão-Mestre e gratifício, é qual um grito gravado no coração da cidade. No coração da concórdia, e por isso, meus Amigos, no acorde-acordeão. E se a Língua é pois a liga, colabora, desta sorte, o Amigo Vítor, na criança-criação, colabora, portanto, a verdade com a mentira no projecto criacionista – e se a escola é qual recreio, já estamos, por isso, vendo o Vítor – no conspecto e no aspeito da Cultura Portuguesa. Sempre a brunir, a lustrar, e a civilizar. Sabedor, sempre e sempre, de que é preciso, e é premente, reaportuguesar, por isso, a Pátria Portuguesa – e a Língua liberal, e a Língua na qual fez sonetos o Camões.           

E se o livro é a lavra e a lavra é pois o livre, se o digesto é o germe e a Palavra é pois o Pão, nos educa, pedagogo, o Amigo Vítor – pra que nós manduquemos o génio das palavras. E o corpo de Vítor é selecta e pois oblata, se chama o seu corpo a «Noite dos Tempos». Quero eu dizer: em dilecto linguajar, assimilar, o seu tropo, é símil tornar – e a Noite, como vimos, é nitente, e a Lua é pois o espelho da especulação. Quero eu dizer, no conceito: do especial, do espectáculo e por isso do conspeito. E se o Vítor, por vezes, é des ( a )tinado, ou distraído, é que ele vive, na pletora, em templação, contemplação, da Ideia platónica – e se ele se esquece, muitas vezes, da minudência ou pormenor, é que ele vive, graciano, é que ele vive esquadrinhando o Arquétipo e Arcano. Longe de serem, como em Freud, reminiscências arcaicas, são, os Arcanos, os padrões e modelos, são Arquétipos e mitos – e nos Arquétipos se finca a escritura de Vítor. Arquétipo, já o vimos, é sinónimo, aqui, de Ideia platónica, ele é, pra Lévi-Bruhl e Émile Durkheim, uma representação colectiva – e se o Eu é um Outro, se situa, portanto, a Poesia de Vítor  no ponto de encontro do individual – com o colectivo e social. Representar, aqui, é tornar patente ou presente, é significar, pôr em cena ou simbolizar – e é o que se passa, nitente, com a «Noite dos Tempos». Ou na vez e na voz de Vítor-Luís Grilo, são «Palavras onde se ouve o silêncio / quando escrevo seu voo infinito. / Palavras que são como um rio / levando tudo em que medito.» Que se avente, portanto, e se averbe no carme: é que o Vítor-Luís Grilo é deveras trovador. Se ele canta, se ele exclama e se ele grita, é que ele estorva, ele turba e perturba – e ele louva, ou exalça, os tópicos e tropos. O discurso, em Vítor, não é normativo, é conúbio e cor da conotação. Ele encontra, e arquitecta, a palavra certa para a nota correcta. E por isso o seu estro dá origem ao estrogénio, e por isso o seu hino é rompimento do hímen. Pois se o crítico literário é deveras Psiquiatra, o carácter se desvenda através dos caracteres. Não a cara, pois, em Vítor, mas as máscaras fortes e metáforas muitas. Que a simular, dissimular e disfarçar, a imagem pois imita, e o Vítor, personado, e o Vítor só finge porque elabora as ficções. De acordo, sobremaneira, com Jacob Levy Moreno, o homem é, dessarte, um autor, um actor de Deus no palco do Universo – e já falamos do Poeta, e já falamos, alcandorado, do Autor e promotor da «Noite dos Tempos».      

Estamos quase, ó legente, a findar. No poema intitulado «Corpo Antigo», assevera, veramente, o Vítor-Luís Grilo: «As palavras chegam devagar / e eu escrevo. Tomam a forma / de um barco, de uma concha / ou de uma folha de trevo. / Desse corpo antigo, espesso, / Nasce uma prosa abundante, / quase feliz.» Feliz é o ledor que topa, no ardor, com a «Noite dos Tempos». Aventamos, portanto, a estética hipótese: é Metafísica, entanto, este livro polido – mas ele abarca, e ele abraça, o homem de carne e cartilagens, o homem de músculos, de ossos e de nervos. E se a Poesia é do Universo, quero eu dizer, se ela é Ciência do Homem, nos seja lícita, ou explícita, a sagrada e a seguinte proposição: quando o caso de Vítor-Luís Grilo for um caso pessoal, ele não interessa a ninguém!!! O caso e a causa de um grande Poeta é concernente, e atinente, a todo o mundo, a toda a gente e a todo o lente. Ou melhor: a todo o litoral da literariedade. Sua mente, por isso, é liberada, sua mente é laborada, e a semente está lançada. O Vítor não é, como um dia nos disseram, um vencido da vida, ele é, em vez disso, o Vencedor da Morte. Ele é hermético, hermeneuta, ele é mercuriano. O que nós fizemos, por isso, no excurso, não foi explicar, nem explanar, a Poesia de Vítor, tal foi, na preensão, o prendê-la, aprendê-la e compreendê-la. Explica-se, por isso, a locomotiva ou computador, e prendem-se, ou aprendem-se, as Ciências do Espírito. Quanto ao Vítor, ele luz, em firme Firmamento, como um Poeta, luminar, do século XXI, como um Poeta forte e firme da Portugalidade. Que se move e comove, Vítor-Luís Grilo, no Pão e paládio do Espírito Paracleto. Graças, por isso, ao divino. Graças ao Pai. Graças à Paz. E Graças a Deus.

Que Luz, 15/ 10/ 2017

COOPERATORES VERITATIS

SOCIEDADE DE ESTUDOS DE FILOSOFIA E LITERATURA COMPARADAS

PAULO JORGE BRITO E ABREU




MENSAGEM OU MENAGEM A D. DUARTE PIO



( avoco, para a Musa minha, o Arcano do Sol )



 ( Poesia é preste, o tempo urge. Com a Casa Real Portuguesa, reaportuguesemos

Portugal. E unamos, agora, o ceptro e a coroa à barca petrina…… )



Ancorado e escorado em D. Dinis,

Em São João de Deus, em São Miguel,

Eu louvo o amorável Amadis:

São a lis, são as Rosas de Isabel.



Manda Amor, diz Maria, se ela diz

Que a Lira é consentânea, e é fiel,

Eu vejo, em menestrel, o meu País:

Um só Rei, um só gabo e Gabriel.



Tão cedo passa tudo quando parte,

Mas o Sol de Bragança é meu prior.

A Musa é d’ aliança, e quanta Arte!!!!!!!!!!!



Que de mel no Menino Imperador!!!!!!!!!!!

Aqui eis a Beleza em baluarte

- E eis, em D. Duarte, o meu Senhor.



Que Luz, 22/ 07/ 2017



SIC ITUR AD ASTRA



PAULO JORGE BRITO E ABREU



HOMENAGEM À MULHER



( invoco, para a Musa minha, o 2 de Copas Arcano )



«Mostra-me o homem que fale contra as mulheres por serem mulheres

e declararei solenemente que não é homem.»



Charles Dickens



Mulher nua

polpa de romã

que vem qual Lua

e me afaga no corpo da manhã……

Dourada estrela

que os meus sonhos ilumina

e é como vela

a marear pela campina……

Ou nessa roça

suave rapariga

que é qual verde, verde moça

- nos lábios da terra, no louro da espiga……

Alfim Mãe que na dádiva de leite

rasga o peito em sépalas fulgindo

e no imo da Noite à luz do azeite

é qual néctar verde folha

- marinha que nos molha

num barco lindo, lindo……

Quisera, mulher-Mãe

( ah! como quisera! )

que tu fosses reaver

em Belém

a perpétua Primavera

Mas ora que os teus dias

se aproximam do fim

e no meigo tetracordo

essa Vénus te abandona

Recordo, sim, recordo

uma dália, um jardim

o Messias cantando

no colo da Madona



Lisboa, 17/ 03/ 1995



AVE MARIA, GRATIA PLENA



PAULO JORGE BRITO E ABREU



MENSAGEM OU MENAGEM A DONA ISABEL DE HERÉDIA



( onde se alteia ou se exalça o seu Amor por a causa Real e, em Dona Isabel, o

brilho e a Luz do Eterno Feminino )



Amor que é lis, que arde e que não cansa,

Amor que é forte, é fértil e feraz,

É de Inês, é de Pedro e é da Paz,

É de vós, ó Duquesa de Bragança.



Em Angola e Brasil a vejo mansa,

Lísia Bela, que é Sorte e é sagaz,

Sim à Lira, e ao dom de Monsaraz,

Sim ao plectro e, assaz, assim liança.



Do Amor que é São Paulo e, no colégio,

A ternura, o vivaz, o vento régio,

Do Amor que é Curvello e, numa Herédia,



O ensaio, o ensino, Enciclopédia,

Pois a 13 de Maio, que agiganta,

Isabel, Isabel Rainha Santa……………….



Que Luz, 10/ 08/ 2017



AD MAJOREM DEI GLORIAM



PAULO JORGE BRITO E ABREU