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«POEMAS DO LAR»: REVELAÇÃO E REVOLUÇÃO EM
JORGE TELLES DE MENEZES


I, A ESTROFE

Decaído, dejectado e refusado no mundo, o mesmo mundo é presentificação, re-apresentação, de Jorge Telles de Menezes, e quer isto apresentar, em magnetismo da Mnemósine, uma nova feeria das mágicas imagens. Ou como, na Luz, ou como quem aduz: se a génese é a Gnose e a Gnose é germinal, o engenho é generoso, o conhecimento ou «co-naissance» é um nascer em conjunto – e a esse conjunto, em toada ou sintonia, se chamava «Pantónicas». Ou melhor: se Orfeu é do refrão, e a Música é Museu, o Museu, dessarte, é templo das Musas – e aqui falamos, avocamos, Jorge Telles de Menezes; é dele, desta sorte, a voz e a vez. Dilucidemos, então, elucidemos o ledor: em morfose-metamorfose, Morfeu informa Orfeu, e o sonho é qual o êxtase, e dormir, ou sonhar, é ser Iniciado. Mitológica, portanto, etimologicamente, era, Museu, qual mavioso cantor; educado, mirificamente, por as Musas amáveis, ele era filho da Selene, da Selene e de Orfeu – e eis, com a Lua, o valor e alor, e eis agora aqui o lema do Jorge. Vem mesmo, no lance, a talho de foice: é Sintra, desta sorte, a montanha da Lua, e Orfeu foi fundador, o feitor e promotor dos Mistérios de Elêusis. E é força, no acme, aqui dizê-lo: como autor de milagres, como o liberador do Averno inconsciente, é Dioniso, para Jorge, o deus das Belas-Artes, ele é por isso o Liber Pater, o paraninfo e protector dos Poetas libertários.
Ciente fique, em consciência, o ledor: à ordem do dia se opõe, em Jorge, a paixão pela noite; se nós temos, em Apolo, o «Logos» da razão, nós temos, noutro pólo, o deleite e as delícias da imaginação; mui longe de serem, como em Malebranche, «a louca da casa», as imagens em acção são reingresso, ou regresso, ao fantástico mundo mágico-simbólico – e é por isso que o Menezes alteava Novalis, e é por isso que o sonho é a infância no homem. De tal forma que diremos: Jorge Telles de Menezes, o menino, afinal, do Espírito Santo. Um vidente amatório da Noite como nau, um homem sempre em busca do Eterno Feminino. Ou melhor: do natal, da natura, ou da Estrela no Homem. Quero eu dizer, e aduzir: do divino e do «daimon», da máscara e não da cara, do «pensamento selvagem» segundo Claude Lévi-Strauss. Do maioral, do mista e misticismo. E da magia, dos tropos e das metáforas, duma contracultura que anela, e apela, para a cultura de encontros – e eis, em tertúlia, o Tertuliano, eis em grama o Psicodrama de Jacob Levy Moreno, e não andamos, aqui, muito longe do grimório, da glossolalia e também da guematria. Pois no grémio, na graça, no grupo, me alembro de ter pensado, ao assistir a um simpósio, cenáculo, dos «Meninos da Avó»: «Na pedra de Heracleia, o Jorge cultiva, a fundo, a Gaia Ciência, que ele é garbo e grandioso, é magnetizador de alto gabarito» – e eis a senda, a carreira e a cruzada de Menezes. Que a Poesia, para o Jorge, é Pão da Vida – e se a Arte aratória é Arte oratória, a Palavra, aqui, é pau da lavra, a cruz é a espada e a espada o bisturi. E eis, agora, a rapsodomancia. Eis os tópicos, e tropos, de Jorge Telles de Menezes.


II, A ANTÍSTROFE

Mas o Autor, e promotor, de «Poemas do Lar», foi lançado no mundo, ele é «Dasein», ou Ser-aí, em projecto no mundo. E por isso, seguindo Marx e Rimbaud, ele o quer transformar, em mundificação. Quero assertar: no mundo da canção. E apostilando e epistolando, apostolicamente, pra aquilatar, adrede, a revolução, evolução, em Jorge Telles de Menezes, ouçamos o avito, e venerando, «Livro de Isaías». Fazendo ele a profecia, ou prognose, do messiânico reino, «Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.» E afinal já falamos, em figura-fulgor, duma Utopia, ou Eu-topia, em Jorge Telles de Menezes. Que tem, precisamente, em Isaías, Ezequiel, os seus primeiros precursores. Quero eu dizer: se o Profeta é provençal, e é Poeta o professor, deriva, o Vaticano, a sua força, do projecto-vatícinio. Que o mesmo é firmar: da prospectiva visão. De uma obreira, de uma oblata, beatífica visão. De uma epiclese portugalaica, e pentecostal – e nos apraz citar aqui, no crisma e carisma, o Nume e o nome de Agostinho da Silva. De um império, prospecto, do Espírito Santo. Em «communio», por isso, com o «Mitsein», o «Dasein» de Menezes insiste, veramente, na Verdade do Ser, é que ele clareia, abertamente, na clareira do Ser. Ou em lhaneza de chão plano: se é linguagem, deveras, a Casa do Ser, as palavras, em Jorge, são «Poemas do Lar» – e é colaço, por isso, o Paulo Borges, e a Ecologia, em Menezes, é a Escola do escol. Se nós firmamos, visionamos, o Jorge sempre em busca do Eterno Feminino, essa voz que vem do ventre, e essa voz que vem de Vénus, ela é, pra Menezes, o útero materno. E o que é, dessarte, a Rosa da Anarquia, senão a morte, o passamento, o epicédio do Pai??? Se o Padre é, por isso, o mantenedor da simbólica lei, «o coração tem razões que a razão desconhece» – e se opõe, a essa lei, o princípio do prazer. Se opõem, na barca, as Copas ao Pau. Quero eu dizer, com Lacan e Rimbaud, que este Eu é um Outro, que o inconsciente, ele é, deveras, o discurso do Outro, do estranho, dessarte, e do estrangeiro, em Jorge Telles de Menezes. E ouçamos, por isso, ouçamos o Jorge: «O homem que cultiva a beleza deve viver fora dos muros da cidade, particularmente se for Poeta». O Poeta, por exemplo, para Grade, ele fabula, alegoriza, ele fala de outra cousa, o «allós» congraça o alienado. Ou melhor: pra retomarmos, fazendo-o nosso, um tema e emblema de Carl Gustav Jung, é peculiar, o Mito, ao lema e noema do homem primitivo – e contra a moral e sem o saber, o homem civilizado ainda arrasta, atrás de si, a cauda de um sáurio. Se o sonho é, por isso, uma pequena loucura, a loucura é, deveras, um grado e grande sonho. E se o Mito é, no fundo, um sonho colectivo, o sonho ele é, na verve, um Mito particular, a Psicanálise, a análise, o sonho do século. Sendo o Freud, pra Paul Ricoeur, o Mestre da suspeita, o Menezes retomou, fazendo-o seu, o rito e o mito da amada Selene. E se a Selene é do segredo, e o sagrado para o degredo, a Selene é desta sorte a divina Saudade, ela é entanto, numa Alice, o desdobramento em espelho – e esse espelho só ex-siste pra ser lunar, pra ser o lar, e espectacular. A propósito, então, do «leitmotiv» do Jorge, seja-nos lícito, aqui, citar a Musa, e a fusa, do pensamento «Beat» ou da «Beatlemania»: «When I find myself in times of trouble, Mother Mary comes to me. Speaking words of wisdom, let it be».
E muita Paz, e muito Bem. Sendo o Teatro Tapa-Furos o amável do Jorge, em lugar de pragmatizar, dramatiza, esse estro, uma Ontologia, ou Teologia, dos poéticos valores. Quero aventar: se a «persona», para o Jorge, é preternatural, o surreal não é só dele, mas sim do Poeta, ou Profeta, de todas as nações e de todos os tempos. Se o agro, aqui, é o sulco de arado, o versejar ele é diverso, o avesso e o reverso, é pintar a realidade com as cores, e corações, do saltimbanco ou pelotiqueiro – e aqui eis o «Bateleur», e eis aqui a mensagem de santelmo António Telmo. Esta forma de Magia, no nosso Amigo Jorge, não é falácia nem fútil, é transmundar e transformar, à guisa do Acrobata, a verdade em mentira e a mentira em verdade. Ou melhor: em «Alêtheia» de alumbrar, a Poesia é para Jorge o trasladar-metamorfose, ela é uma «ek-stática» insistência na Verdade do Ser. Ou melhor: nos fins do século XX, bastaria fazer parte dos «Meninos da Avó» pra o eduzir, o educar e seduzir: é que mais do que representar, a vida imita a Arte e a Arte imita a vida, e tem no «poster» o «teenager» a guitarra do cantor. Queremos nós aqui dizer: pra citarmos João Belo, em sua vez e a voz, «sou mais Eu quando Tu és a síntese de nós.»


III, O EPODO

Se o trovar, dessarte, é falar segundo os tropos, toda a Arte, para o Jorge, é qual «mensonge», ou mentira, que se transforma, a pouco e pouco, em verdade promissora. «O que é uma mentira?», demanda Lord Byron. «Não é senão a verdade duma mascarada.» E afinal já falamos, aqui, do Teatro do Ser. Do fantasma, da ficção, do fetiche e do fantoche. Que o inconsciente do Jorge se exprime, prementemente, por meio, e através, das suas imagens. Nesse imenso Carnaval, ou «carrus navalis», que é o sonho acordado, sabemos que praticava, o Jorge, a escrita automática, o «automatismo psíquico» segundo André Breton. Que se apoiou, com força justiceira, no Pierre Janet. Mas versando, agora, os «Poemas do Lar», que não nos iludamos: os livros, para Jorge, são libertos e os livres. Ao ser Amigo do «otium», da escola e ABC, o Jorge era Amigo do refusado, do abaixado e «abaissé». Nós cremos, sinceramente, que a Poesia, para Telles de Menezes, é o mundo às avessas, que o Artista, ou artilheiro, libera o recalcado, e que a Arte, por isso, é qual arteiro anti-destino. E querendo, no artifício, com a força da crença, o dilema do Jorge ele reside, rapsodo, na «Origem da Tragédia», de Friedrich Nietzsche. E além das Dionisíacas, Amigo ledor, punha em práxis, o Jorge, o sátiro, o sabat, e a festa Saturnal. Pondo em prática, ademais, a «Quaker» «weltanschauung», o Jorge seguia, com «adresse», o preceito evangélico: ele humilhava o exalçado, ele exaltava o mais humilde. Sendo humilde, por isso mesmo, o pensamento radical e a força do humo – e não remembras, ó legente, Raul Brandão radicalista??? Ou melhor: tu não alembras, ó ledor, a «terra devastada» do nosso Amigo Jorge??? O Jorge que acatava, e aceitava, o panteão e Paracleto de Antero de Quental: se «o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo, a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.» Se o Jorge, por isso, é da Geia, ora eis, aqui, a sacralidade, em natal, da deusa Natura: «A natureza era uma extensão de Deus, eu era uma parte de um divino corpo imenso como o próprio universo» – e aqui temos, adrede, o Pão e Vinho, o deus Pã encarado como a totalidade. Sejamos, agora, sincero: não era o Jorge que assertava, outrossim, que «cozer um pão é uma festa e uma celebração da terra»???
E epistolando na espécie da especulação: se a Pátria, entanto, é o princípio do Pai, a Natureza, ou nascitura, são as águas da matriz. Da Mátria, portanto, da Natália Correia. Bem perto, aqui, do paládio-paleta. Muito longe da Polícia, e dessarte dos patrões, contra o Letes e a lei da separatividade. E se a Cynthia mulher é a casa do homem, «o lar é condição para o aprofundamento do Ser», ele insiste, com Saudade, na «Alêtheia» do Ser – e por isso ele é o Betel, o bétilo, o «Beth», a marca segunda do alfabeto hebraico, e nós alçamos, alteamos e louvamos a Kabbalah fonética. A liga, afinal, a Língua dos Pássaros, o Livro do Mundo e o Livro da Vida. Se a salvação, portanto, vem das Mães, «um lar», para Jorge, «só existe no coração, ele é a pátria de todos os desterrados» – e não é, reincidindo, que são precisos «dois mil anos para sermos cidadãos de uma República universal»??? Jorge Telles de Menezes, no Querigma e no carisma, um cidadão do mundo, o verso alteado na unidade e «communio» da universalidade. Se «beber uma chávena de café», para ele, «é um acto revolucionário», apalavrar, para o Jorge, é lavrar por isso em Pã, a fim de que a sementeira em Cristo floresça. À revelação, dessarte, dessa Unidade primacial, se segue, bem cara a Abril, a clara e preclara revolução. Ou melhor: bem edível e edule, «o alimento vem da terra que cultivo, a paz que sinto é a minha única riqueza.» Queremos nós aqui dizer: ao manejo das armas se segue, bem cordial, o cultivo das Almas – e aqui eis o Sol e escol, e encerramos as prisões para abrirmos as escolas. E ratificando, rectificando e concluindo, com «Poemas do Lar» se aprimorou o Menezes, reproduziu-se, no germe, igual a si próprio. Muito longe, dessarte, da existência inautêntica, ou massificação, o escopo do Jorge, na linha do Rogers, foi «tornar-se pessoa», foi tornar-se, por isso, «persona» divina. E muita Paz e muito Bem. E terminando, na cita, com Eugénio de Andrade, foi dum Poeta que falei. E em responso, ou em resposta, que seja livre o rapsodo. E «que rompam as águas.»

Que Luz, 09/ 02/ 2019
IN HOC SIGNO VINCES
PAULO JORGE BRITO E ABREU



MENAGEM, SENTIDA, A FILIPE DE FIÚZA


 ( avoco, para a Musa minha, o Ás de Paus como Arcano )

És Poeta de Sintra e, na safira,
És apóst’lo da Luz e de hombridade, 
Imagista da vez, e voz de Lyra,
Nascido para a Santa Liberdade. 

Se escreves «Liber Mundi» por que adira
Teu nome à «Beliula» e à Verdade,
Muita clave e mentor são mar’s em mira,
Laboras na oficina da Saudade. 

O Teu Fado é cantar numa Ofiúsa,
Fiúza liberando nas miragens.
Se é Luza teu labor em língua lusa,

Tu és «homo viator» nas viagens,
Pois é farta, meu filho, a nossa Musa,
Como é Tua, a magia das imagens. 
  
Que Luz, 09/ 01/ 2019

PAX, DUX, REX, LUX

PAULO JORGE BRITO E ABREU

NOTA BENE

No verso primeiro do primeiro terceto, «Ofiúsa» é o nome que dava, o Poeta e geógrafo latino Rufus Festus Auienus, do séc. IV, ao nosso Cabo da Roca. Sendo, o mesmo cabo, o prolongamento natural da Serra de Sintra. A Obra em que surde o termo «Ofiúsa» tem o nome de «Ora Marítima» e ela é, adrede, um roteiro antigo do litoral do Mediterrâneo e, desta sorte, da Península Ibérica.
Martin Heidegger



JORGE TELLES DE MENEZES

 ( avoco, para a Musa minha, o Arcano do Sol )

Irmão, irmão na vida, irmão na Musa,
Florindo numa Luz de bem-me-queres,
Tu já ao Céu subiste, por que luza
Tua cara através dos caracteres. 

Tua lida não foi qual vida oclusa,
Na Lua Te aguardavam belvederes, 
Comigo Tu flamaste, na Ofiúsa,
O Eterno Feminino das mulheres. 

Te visiono, agora, no Teatro,
Na Quinta Regaleira do arcano.
Se em Musa, Monserrate e Viriato,

Tu foste o Cavaleiro e foste Mano,
No fértil Paço, eu quase Te idolatro,
Poeta, meu colaço e Vaticano.

Que Luz, 06/ 01/ 2019 

SIC ITUR AD ASTRA

PAULO JORGE BRITO E ABREU


NOTA BENE:
No verso terceiro da quadra segunda, «Ofiúsa» é o nome que dava, o Poeta e geógrafo latino Rufus Festus Auienus, do séc. IV, ao nosso Cabo da Roca. Sendo, o mesmo Cabo, o prolongamento natural da Serra de Sintra. A Obra em que surde o termo «Ofiúsa» tem o nome de «Ora Marítima» e ela é, adrede, um roteiro antigo do litoral do Mediterrâneo e, desta sorte, da Península Ibérica.



No passado dia 26 de Janeiro 2019, Paulo Brito e Abreu foi convidado para a apresentação do novo número da revista A IDEIA. A sua performance de canção e poesia marcou a parte final da sessão.

Veja a versão curta e longa da performance abaixo:

VERSÃO CURTA



VERSÃO LONGA



FOTOGRAFIAS








MARIA JOSÉ VERA E O CAMINHO DA LUZ

( «in memoriam» do Poeta António Vera )

«O homem fala, então, mas é porque o símbolo o fez homem.»

Jacques Lacan

O nome é o Nume. O Astro é o estro. Requer, este «liber», o falante e aflante. E por isso, preste e pronto, e por isso divisamos: ao mentarmos sobre o livro de Maria José Vera, não podemos olvidar: a Autora profere, ela professa, a amada Psicanálise, sem temor, mas com tremor, há mais de trinta anos. Isso aduz, ou quer dizer, que a Autora realiza, pronta e preste, uma operação sobre a linguagem. Quer isto significar: um pôr-se em obra da «alêtheia», um pôr-se em obra da Verdade, um doutrinar, e ensinar, sempre através do signo linguístico. O homem se faz homem, por isso, ao partilhar a linguagem, quero assertar, o contrato social. E para bem apreender, pra bem compreender Maria José Vera, que faça, o legente, como o culto Cassirer  - e em lugar de distinguir entre animais racionais e os animais irracionais, que destrince, o ledor, entre animais não-simbólicos e animais, ou falantes, providos de símbolo. Se o Ego anela, e apela, por o discurso do Outro, aquilo a que chamamos inconsciente é um lugar desocupado onde se consuma a autonomia da simbólica função. A propósito, então, de Maria José Vera, nos remembra, e alembra, Claude Lévi-Strauss: «Os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam. O significante precede e determina o significado.»

Ou melhor: se o mundo descrito em «O Complexo de Lúcifer» é, de certa maneira, o esquecimento do Ser, Maria José escuta, ela escruta, as vozes recônditas que vêm do Ser. Sempre tendo, por isso, em conta, que o «id fala», que o «ça parle», que o inconsciente, nos sonhos, se manifesta através da lítotes, das metáforas, e das belas metonímias. O sonho, por isso, é gramatical, ele é um texto que merece ser descodificado. O crítico literário é deveras hermeneuta – e hermeneuta é também o Psicanalista. Sigmund Freud, afinal, o hermeneuta de Sófocles. Aquele que, para aclarar a Psicanálise, retomou o caminho da Poética antiga. E não será Poesia em prosa, com todas as veras, «O Complexo de Lúcifer»??? Não será que o acalanto é alento e alento, o alimento??? O Eu, para Rimbaud, ele é um Outro, afinal – e a força da Palavra, pra Maria José, sai de si em busca de si própria no Outro. Que o edível é edule, o educar é eduzir e eduzir é seduzir – e o «sermos dois», na «communio», é o princípio, ou início, da Revolução. Ou melhor: na clínica do estilo, no horizonte da Análise a Liberdade fulgura – e temos, então, Maria José Vera, como a figura-fulgor e a livre-pensadora. Ouçamos, na cita, a promotora e Autora: «Eu sou aquele que se descobriu no ponto de um lugar nunca passível de ser ocupado por nenhum outro» - e tal como, de feito, em Vergílio Ferreira, a existência precede a essência, e está, Maria José Vera, condenada a ser livre. Na grafia, ou gramática, do inconsciente, ela é o Homem, o drama e a tragédia, a cena, o actor, o guião e fazedor – e é o que se passa, «verbi gratia», no trabalho do sonho. Não será, entanto, «O Complexo de Lúcifer», qual auto-análise existencial??? Nos afiança, de facto, a feitora: «Canto, com a minha solidão, o inconsolável desespero dos que remetem para o belo a única herança. O património. O tesouro que resta. O belo e eu somos massa da mesma solidão. Constituímo-nos no lugar de onde partiu o afecto. Toda a estética me faz chorar: dá-me a ilusão de comigo partilhar esse lugar que foi ( nunca foi ou jamais o será ) o lugar do amor.» Ou melhor: como em Jacob Levy Moreno, a Autora faz do jogo o auto e o teatro, o Psicodrama preste – e a paixão, por isso, é patética, a auto-análise é entanto passional. Remembremo-lo, entretanto, mais uma vez: em amor, ou melhor, numa harmonia das esferas, o papel de Maria José é único, dessarte, inconfundível também. E mais, por isso, do que a contracultura, este livro relata a cultura de encontros. Que disserta, desta sorte, Maria José: «Eu próprio já parti, e não me comovo. De mim fica a beleza do que criei, no lugar onde havia de ter sido o encontro.» O convénio, confluência, o contubérnio. E trago aqui, à colação, a ex-centricidade do Ser. «A ferocidade que é esquecida e vilipendiada pelos que possuem por meta o sonho da tranquilidade do lar.» Quero eu dizer: no «pensamento selvagem», de Claude Lévi-Strauss,  cotejemos então a cita com Fernando Pessoa: «Triste de quem vive em casa, / Contente com o seu lar, / Sem que um sonho, no erguer de asa, / Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar!!!»       

Temos, então, que o material mais importante do Psicanalista são, propriamente, as palavras. Palavras, palavras, palavras. Tratada, de feito, por Josef Breuer, entre Julho de 1880 e Junho de 1882, Anna O. ( ou, com mais rigor, a Bertha Pappenheim ), ela deu, à Psicanálise, o nome de «talking cure», a cura, dessarte, através da palavra. Curiosamente, tal Catarse é, pra Pierre Janet, a moral desinfecção – e mitologicamente, etimologicamente, Psicologia é, de feito, uma «fala da Alma». Do que se trata, em Psicanálise, é fazer com que, através da fala, saia, do sujeito, um segredo patogénico. Ora a «Catarse» é uma palavra grega proveniente dos Mistérios e popularizada, arcaicamente, por Aristóteles, deveras. E se a «catharsis» é o meio de liberar as paixões vivendo-as, na verve, de forma imaginária, o dolente participa, ou toma parte, nos dramas mistéricos, os de Elêusis, por exemplo, ou da «mystery play» - e não estamos, veramente, não estamos nós em plaga de Jacob Levy Moreno??? A Psicanálise, afinal, é o sonho do século, são filósofos dormentes, é a «linha oblíqua e mimosa entre o dia e a noite.» Queremos, nós, aqui, dizer: leitora de Virgílio, de Lautréamont, de Lord Byron, o bragante, a Autora, afinal, é senhora «do paradoxo e da imponderabilidade». Passa, por isso, a lógica matemática, por os princípios da identidade, da não-contradição e do terceiro excluído – mas este livro de Vera, ele tem por essência o Mito e a mentira. Ouçamos, agora, uma cita, um excerto, das minhas «Loas à Lua»: «Mas se a ficção e os fantasmas do estado religioso forem considerados como mentiras poéticas ou puramente utópicas, resta agora afirmar que esse tipo de mentiras ou ficções são, para aqueles que nelas crêem, mais plausíveis e reais que a prosaica realidade.» Contar, por isso mesmo, os sonhos e mentiras: eis o múnus, o cargo, do Professor de Literatura. «Sou um exilado», nos remembra, ainda, Maria José Vera. E mais à frente, afinal: «As minhas raízes estão no pensamento e no saber, nos quais procuro afiliação. Digo «procuro», porque não encontro. Como também nunca encontrei um corpo de mulher, um continente único, que pudesse designar por «mátria». Simulo ter pátria, língua, família e pertença, para poder existir.» Ou melhor: ela simula, e assimila, o Nome do Pai. «Afiliação e pertença? Sim, uso-as para sobreviver. ( … ) E o meu desejo inscreve-se num lugar outro, que não sou eu.» Nos adverte, na cifra, Sá-Carneiro: «Eu não sou eu nem sou o Outro, / Sou qualquer coisa de intermédio, / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.»

Como aventámos mais atrás, é exemplo, «O Complexo de Lúcifer», de Psicanálise, ou análise, existencial. Ele é «Mitsein» e é «Dasein», é uma tópica insistência na Verdade do Ser. Queremos assertar: se o Homem, para Sartre, é projecto, ele é também, para o Heidegger, agora, dejectado no mundo. Tal como na fenomenologia, de facto, de Ludwig Binswanger, a ex-sistência do sujeito é tomada na sua tríplice dimensão do tempo, do espaço, e da mundanidade. Quer-se dizer: se o «topos» do sujeito é isolado, exilado, ou fora da ilha, urge, aqui, um Ser para os outros, a união, o encontro, do Eu com o Tu. Ser dela capaz, como o lúcido Lúcifer, é portar, e transportar, o tema e o lema, o emblema da Luz. Quer saber, o legente, qual é, na História das Ideias, o signo, e a signa, dos «Mestres da Suspeita»??? Ele é, para Paul Ricoeur, o tríplice nome de Freud, de Marx, e de Friedrich Nietzsche. Uma treva que dá Luz, a ruptura inaugural. Ouçamos o que asserta Maria José Vera: «A minha liberdade é negativa porque não tem lugar onde se acoitar. Nem possui lar, nem país. É apátrida de concepção». E esmiuçando, mais à frente: «Não tenho lugar para existir. A minha pátria é o meu desejo. Sou vagabundo. Estou sempre de passagem» - e remembra-se, o ledor, da ex-centricidade do Ser??? Se Maria José Vera é libertária Poetisa é que ela inverte, reverte e subverte o centro do mundo. Ou melhor: ela trova e ela estorva, ela é Mestra, aqui, da Grande Recusa. Revertendo, por isso, a Lord Byron, ela diz: «Não entrego a minha alma a espíritos ou a sacerdotes. Esses só obtêm de mim a minha força e o meu desdém. Ele quis, no derradeiro momento, em «Manfredo», alcançar na morte a solidão da vida. Eu alcanço na vida a solidão da morte.» Pastora, como vimos, de palavras, desvela, com a dextra, Maria José – para velar, e ocultar, com a sestra e sinistra. E disserta, a Autora, a dado passo: «Um dia remeter-me-ei ao silêncio. Talvez através dele me reencontre.» Porque todo o conhecimento, ele é forma, sagaz, de reconhecimento. E porque o ser, para Berkeley, é ser percebido. E porque o mundo, pra Schopenhauer, ele é a minha e é a sua representação. Tal como em Heraclito, a vida, para Maria José, é a morte dos imortais, e a morte dos mortais é a vida de imortais. E a propósito da Psicanálise, ouçamos, ainda, o heraclitino: «O tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança». Esta frase resume, como poucas, o fenómeno, figadal, de «O Complexo de Lúcifer». Ou melhor: se o jogo, aqui, é contra o jugo, o princípio do real, ele é inverso, e ele é contra, o princípio do prazer. Para afastar, por isso, a angústia, o Homem pois apela ao «divertissement», ao boato e à charla da lenda leitora. «Verbi gratia», na verdade, Juvenal, nas suas «Sátiras», ele despreza e verbera os Romanos da decadência: pois, segundo o Poeta, eles só pediam o pão e espectáculos de circo. Dizem, por isso, Espanhóis: «Pan y toros» - e já estamos no âmago, no íntimo ou imo de «O Complexo de Lúcifer». Lúcifer, ou melhor, o mundo gentio que nos vem dos avitos. Se as multidões sentem prazer com o sangue derramado, é porque Jung, de feito, é figadal – e o homem civilizado ainda arrasta, atrás de si, a cauda dum sáurio. E se canta aqui a Vénus, na Musa e no carme, é porque o hino, ou himeneu, é o rompimento do hímen. Se imaginar, entanto, é como fazer, imagina-se, por isso, em estado mágico-simbólico, e a Arte é pois regresso ao mundo da infância. E só ficciona quem finge, quem sonha e fabula. Dá-se Poesia, em nós outros, quando a gente sonha – e entra, em Metaciência, e entra nas imagens, nos mitos, nas metáforas. Pois, etimologicamente, na língua gaulesa, o «trouver», ou «encontrar», é ir ao encontro da trova e do tropo. «O Complexo», por isso, de «Lúcifer» - e eis aqui o sintoma, aqui eis a retórica do inconsciente. E é tempo de aduzir que o sonhar e a quimera, é qual «imago», paternal, do Poeta António Vera; a ele então a trova e o reconhecimento. Ou o saber, veramente, «que de mim para o outro vai uma ponte feita de corpos e de representações. Atravesso a ponte, mas os pilares feitos de mim e do outro permanecem estacas entre dois pontos inexpugnáveis», o encontro, quando o há, é qual miragem – de me encontrar ausente da minha viagem. Meditemos, entanto: se o sinérgico, ou simbólico, é um sistema de representação baseado na linguagem, Lévi-Strauss compara, a «tékhne» do xamã, com a técnica, a cura, psicanalítica. E o digamos, então, mais uma vez: a Psicanálise é um jogo, ou Psicodrama, que se apoia, verazmente, no falante e aflante.

E de mais falámos nós. E na alegria fantástica das alegorias, de que se trata, este livro??? Duma Ludoterapia ou Logoterapia??? Talvez, no Mito, de uma Arterapia. Cabe ao leitor avalizá-lo – e a divisá-lo, e avisá-lo, fazer o «transfert». Já falámos, aqui, de António Vera. E para Freud, o feitor, os sentimentos inconscientes do dolente pra com o médico são qual traslado, as traduções, de uma relação recalcada com as imagos parentais – e a criança, por isso, nos persegue, e o futuro é qual passado em preparação. O inconsciente, preclaro, é a letra. A clínica é do estilo. Se, no dizer de Jacques Lacan, «uma palavra por outra, é a fórmula da metáfora», ouçamos, com todas as veras, Maria José Vera: «Neste mundo de substituições, de que sou mestre, tudo tem um preço. Excepção feita à mulher que eu nunca amei, precisamente por nunca a ter amado.» Talvez, então, o sonho. Talvez então a vida, afinal, seja a morte. No fim da «mise en scène», frente ao espelho, eu digo, sideral, com Maria José Vera: «Mesmo depois de morto dominarei, pela palavra que pronunciei e que escrevi, o pensamento dos outros. Dominá-los-ei porque usarão a minha palavra para se expressarem. Dominá-los-ei, a esses, que não foram amaldiçoados – ou abençoados? – como eu, com esta força.» A força, afinal, a força do Verbo. Do autêntico, e vero, direito à diferença. A diferença encarnada em Escritora mulher. Ou encarnada, a diferença, em «O Complexo de Lúcifer». E quase à beira do fim, é tempo de alembrá-lo: bem melhor que o sedativo, o psicotrópico e calmante, é, na providência, o poder da palavra. A palavra que mitiga, e que move montanhas, por o genésico poder da imaginação. Que em Maria José Vera, o pensamento é movimento, o pensar é sopesar as palavras sensíveis. E falámos, aflante, de Maria José Vera. De uma mulher, ou terapeuta, a braços com o destino. Que ela a criança amadurece, e a esperança da messe insiste na semente. Porque sim. Outrossim. E para sempre.


Que Luz, 07/ 02/ 2018

SIC ITUR AD ASTRA

SOCIEDADE DE ESTUDOS DE FILOSOFIA E LITERATURA COMPARADAS

PAULO JORGE BRITO E ABREU